domingo, 17 de setembro de 2017
sábado, 25 de março de 2017
BRASÍLIA
(“Cinquenta anos em cinco”)

A
história da criação de BRASÍLIA é
uma história contada por pioneiros. O documentário OSCAR NIEMEYER – A VIDA É UM SOPRO, de 2007, dirigido por Fabiano Maciel, e a minissérie JK, de Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira, exibida pela Globo em 2006, são excelentes
registros desse período.
Em
ambos os filmes, os momentos em que a tabelinha Oscar Niemeyer e Juscelino Kubitschek
aparece em cena, lembrada pelo arquiteto no documentário ou dramatizada na
minissérie, ao lado da concepção e nascimento da nova capital federal, são
pontos altos das narrativas.
Como
complemento dessas indicações, vou me atrever a apresentar um relato
familiar.
Meu pai já falecido, Manoel Laranja, o Manolo,
como era conhecido
pelos familiares e amigos, nasceu em São Borja, em 1918.
Viveu sua infância e juventude na fazenda de meus avós. Até os 16 anos era
praticamente analfabeto. Decidiu que deveria estudar. Completou o supletivo da
época, formou-se em Engenharia Civil no Rio de Janeiro e participou da gestão
de Leonel Brizola na Prefeitura de Porto Alegre, na década de 1950. Inclusive
tinha um projeto para incentivar o consumo de peixe na capital gaúcha, o que não
era comum na época, através de um intercâmbio com a cidade de Rio Grande,
proposta que acabou sendo boicotada pelos grandes frigoríficos de carne.
Tinha, também, muitas histórias do tempo de
estudante e profissional no Rio de Janeiro. Dele e do irmão que também morava
no Rio, Francisco Laranja, médico e diretor do Instituto de Manguinhos,
reconhecido internacionalmente como um grande cientista brasileiro pelas pesquisas
sobre a Doença de Chagas. Os Laranjas conheciam o então Presidente da época,
Getúlio Vargas, e o filho, Maneco, conterrâneos de São Borja. Uma das histórias contadas
por meu pai era sobre o amigo chinês que fazia parte da turma frequentadora das
festas oficiais de um Rio então glamourizado, e depois descobriram que era um
espião a serviço de seu país.
Posteriormente,
Manoel Laranja veio a ser um dos engenheiros responsáveis pela construção de
Brasília. Era um homem simples. Adorava a vida rural. Não tinha inimigos. A par
de sua determinação, lucidez e espírito prático, era generoso e conquistava a
simpatia de quem se aproximava dele. Ensinou aos filhos, entre outras coisas,
que não se economizava com saúde e educação (o que soa como exemplo para nosso
próprio país, açoitado, no presente, por um período de austeridade sem sentido
nos investimentos públicos). Não se gabava de sua participação nesta página da
história do Brasil, o nascimento de um ícone de Arquitetura e Urbanismo, a
capital federal símbolo da obra do maior arquiteto brasileiro, Oscar Niemeyer,
e do grande urbanista Lúcio Costa, e marco do processo de modernização e
integração territorial do país.
Naqueles
tempos, mesmo com incentivos do governo, havia uma resistência por parte das
pessoas em migrar para Brasília. Apenas os pioneiros tinham coragem (hoje a
população é estimada em quase três milhões de habitantes).
Apesar
de eu ser muito pequeno na época (entre dois e cinco anos), guardo algumas
lembranças da minha infância nos primeiros anos de Brasília. A terra vermelha, O Vigilante Rodoviário na TV, os candangos, os carros de corrida coloridos
nas ruas da Esplanada, nossa casa na Novacap (Companhia Urbanizadora da Nova
Capital), depois a casa na Avenida W3.
A
W3, aliás, tinha uma proposta arquitetônica muito interessante e inovadora para
a época: as garagens das casas de dois pisos, alinhadas lado a lado, davam para
a via de carros, a rua propriamente dita; no lado oposto as fachadas se abriam
para um jardim de grama muito verde, cortado por uma via de pedestres que se
estendia ao longo das quadras, as chamadas superquadras. Meus olhos de criança
ficavam maravilhados, achava tudo muito bonito. Infelizmente, hoje em dia, a W3
está completamente descaracterizada.
Manoel
Laranja era o engenheiro responsável por implantar o sistema de micro-ondas na
cidade que se erguia. Trabalhava sob as ordens diretas do Pres. Juscelino
Kubitschek, como um dos seus homens de confiança. As micro-ondas são empregadas
no campo das telecomunicações para carregar informações de sistemas de
telefonia e televisão. Esse sistema iria garantir as ligações telefônicas de
Brasília com o resto do país e o mundo. Era primordial que estivesse pronto
antes da data de inauguração da cidade.
Uma
instrução muito clara foi passada por Juscelino para meu pai: “Laranja, precisamos terminar as micro-ondas
antes da inauguração de Brasília, custe o que custar! Qualquer coisa que você
precise pode falar direto comigo! Você vai ter um canal só para isso. E pode
usar nossos helicópteros sempre que precisar!” Como tudo que se precisava
fazer na empreitada da capital emergente, a missão do engenheiro era quase
impossível. Tudo tinha que ser feito em tempo recorde. Cinquenta anos em
cinco era o lema de JK.
A
mídia da época, que dependia da tecnologia a ser implantada, não acreditava.
Questionavam o Presidente nas coletivas, entre outros assuntos: “Presidente, o sistema de micro-ondas vai
ficar pronto a tempo?” Juscelino respondia: “Sim, ficará pronto na data prevista!” A tensão era crescente. Finalmente,
depois de muitos percalços, em 17 de abril de 1960, as ligações telefônicas
foram completadas! O sistema de micro-ondas estava estabelecido! Quatro dias
depois, em 21 de abril, Brasília foi inaugurada! Minha mãe, Eunice, pôde
preparar-se, aliviada, para o grande baile de gala na inauguração da nova
capital federal.
Essa
é uma das muitas histórias daquele tempo. Hoje, meus pais, assim como outros
peregrinos, descansam protegidos por uma Luz que carrega consigo todas as
respostas aos mistérios do Universo.
Dessa
dimensão onde estão, apesar das críticas suscitadas pelo conceito da metrópole,
estes pioneiros, Eng. Manoel Laranja e demais protagonistas, podem se orgulhar
de ter participado do evento que viram tomar forma na poeira vermelha do Planalto
Central: a criação de Brasília, obra-prima de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa e
Patrimônio da Humanidade.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017
A REDE SOCIAL
(“É o máximo, só que vicia demais.”)
A REDE SOCIAL (The Social Network), de 2010, produzido por Kevin Spacey e dirigido por
David Fincher, grande talento do cinema americano contemporâneo, que aborda a
criação do Facebook, além de um
grande filme é um testemunho sobre a genialidade e perversidade do espírito
humano. E conforme o próprio diretor, a questão principal “é a perda da inocência para todos os envolvidos”. A gênese da mais
popular rede social e a disputa que se trava entre Mark Zuckerberg e o
brasileiro Eduardo Saverin, sócios e depois desafetos, e com demais protagonistas, num
processo que inicia como uma brilhante brincadeira juvenil até se transformar
num sucesso monumental, envolvendo ambição, poder, dinheiro, prestígio,
vaidades, amizade e traição, são a base de um novo clássico da Hollywood do
século XXI.
Tudo no filme tem muita classe: a direção, o roteiro (Aaron Sorkin), a
fotografia (elegante e tradicional, combinando com o ambiente de Harvard), a
música, efeitos especiais, montagem e o talento dos jovens atores (um time de
futuros astros), principalmente a química entre Jesse Eisenberg e Andrew
Garfield.
Começa com uma cena excelente, uma discussão de bar entre Eisenberg
(como Mark Zuckerberg) e a ótima Rooney Mara (como a namorada Erica).
Zuckerberg é apresentado como o estereótipo do nerd, o cara inteligente. Fala
rápida, raciocínio turbinado, mas duramente questionado pela garota, que lhe dá
o fora quando consegue falar: “Ficar com
você é como namorar uma StairMaster”. “Okay, você ainda vai ser um gênio
bem-sucedido da computação. Mas vai passar a vida pensando que as garotas não
gostam de você por ser um nerd. E eu quero que saiba, do fundo do meu coração,
que não será verdade. Isso acontecerá porque você é um babaca.”
O prólogo a mil apresenta a narrativa sempre envolvente e empolgante que
durante todo o filme acompanha a epopeia dos garotos da informática, a paixão de
Zuckerberg e turma pela sua criação, o Facebook, e o jogo de interesses e
idiossincrasias que envolve vários personagens na disputa pelos direitos e
benesses de uma concepção que modificou o comportamento de uma geração (ou de
várias gerações).
A última cena retoma referências à sequência de abertura. Ao final do que seria a última reunião de mediação,
Zuckerberg fica a sós com a advogada Marylin (a bela Rashida Jones), que
acompanhou todo o processo jurídico e ouve o empresário da informática desabafar
em tom de defesa:
- Eu não sou um vilão.
- Eu sei disso – responde
Marylin, com o entendimento privilegiado de quem observa de fora – Em um testemunho
emocional, 85% devem-se ao exagero.
- E os outros 15%?
- Perjúrio. Todo mito de
criação tem um vilão.
Ao sair, ela complementa: “Você
não é um babaca, Mark. Apenas faz de tudo para ser”.
O processo de criação do Facebook foi genial, quiçá mitológico. A grande
sacada de Zuckerberg foi perceber que “buscamos
os amigos na Internet”. O site assumiria “o conceito de nunca estar pronto” e, principalmente, “seria exclusivo”. Como reconhece numa
audiência Eduardo Saverin (Andrew Garfield), que litiga por uma participação
justa nas ações milionárias: “Era uma
grande ideia. Os usuários forneceriam suas fotos e dados e convidariam ou não
os amigos para visitá-los. Num mundo regido pela estratificação social, isso
seria o máximo”.
Os gêmeos Winklevoos (Armie
Hammer) também recorreram à justiça alegando a autoria da ideia de
criar uma rede social exclusiva. Embora o filme seja a dramatização de uma
história real, era interessante como os irmãos, remadores, atletas olímpicos,
representavam um contraste com a inteligência de Zuckerberg, que sempre levava
vantagem. Esse antagonismo entre remadores e caras da computação já havia
aparecido no diálogo que abre o filme.
Uma ótima cena,
bem-humorada, mostra os nerds da informática como se fossem literalmente uma
outra raça, com um modo de raciocínio bem diferente do nosso, “pessoas
normais”. Quando Zuckerberg, sócios e estagiários mudam-se para a Califórnia,
para dar um up no processo de desenvolvimento do Facebook, quase destroem a
casa onde se estabeleceram, com brincadeiras completamente piradas, e isso
atrai a visita de Sean Parker (Justin Timberlake) e uma bela namorada. Criador
do Napster, Sean já conhecia Mark e Eduardo e se “intromete” no Facebook.
Zuckerberg os recepciona e convida para entrar. Abre a geladeira e joga uma
garrafa de cerveja para Sean que se vira e a agarra. Repete o gesto na direção
da garota mas a garrafa passa reto e se estilhaça na parede. Desculpa-se e
atira outra cerveja. A menina, “pessoa normal”, não consegue acompanhar aquele
raciocínio em alta voltagem e cacos voam novamente para todos os lados.
Sean Parker, a presença da
astúcia na trama, mesmo sendo antipático para o espectador (simpatizamos com
Eduardo, não com Sean) deu sua contribuição ao desenvolvimento do Facebook.
Numa festa, entusiasmado, comenta que o site é “a verdadeira digitalização da vida real. Vivemos em fazendas, depois
em cidades, e agora vamos viver na Internet!”
O primeiro contato dele com
a criação dos garotos prodígios foi no quarto de uma garota com quem transou,
através do computador aberto na página dela da rede social. Chama Amy (Dakota
Johnson) e ela responde à pergunta sobre aquele website: “The Facebook? Temos em Stanford, tipo, há 2 semanas. É o máximo, só
que vicia demais”.
Um acerto espetacular de
Zuckerberg e parceiros. O Facebook rendeu-lhes fortunas e um enorme sucesso
entre pessoas de todas as idades, no mundo todo, um “vício” que poucos
conseguiram evitar.
Da minha parte, confesso que
acho muito chato olhar as fotos dos outros com a filharada, pets, programas, viagens.
Um certo exibicionismo social. Mas se as pessoas se divertem com essas coisas
inocentes (principalmente quem posta as fotos), tudo bem. Essa dança festiva de
clics, dígitos, likes, imagens, selfies, nomes, emoticons, reconheço que é uma
curtição para quem gosta. Reencontrar amigos, restabelecer amizades quando
pertinentes, mesmo que virtualmente, é outro ponto bacana. Conteúdos
interessantes (ou não) também são compartilhados nas redes. Cada usuário
reproduz seu nível de cultura, educação e informação.
Mas existe um lado nem tão singelo
assim que se revelou mais tarde, algo que a turma de Zuckerberg jamais imaginou.
Na verdade, perverso. “A perda da inocência”, referência de David Fincher aplicada
ao filme mas sendo transposta para a realidade atual. Meias verdades, quase
verdades, até verdades ou mentiras deslavadas, boatos infundados sem necessitar
comprovação são disseminados pelas redes, com objetivos políticos e
econômicos, e transformam-se em Verdades Absolutas. O que estão chamando de pós-verdade. Mobilizações sociais,
golpes políticos, opinião pública manipulada, votações influenciadas (a eleição
de Trump é um exemplo) são a consequência direta dessa arma poderosa que as
estratégias de dominação ideológica lançam mão, como um monstro que espalha
seus tentáculos empunhando bisturis em incisões afiadas nos cérebros das
vítimas. Ninguém fica realmente imune ao seu poder. Sempre que a criatividade
humana inventa alguma coisa interessante, o Sistema dela se apropria e a
utiliza conforme seus interesses, geralmente bem-sucedidos.
Sob outro ângulo, Zygmunt
Bauman, brilhante filósofo polonês, recentemente falecido, em entrevista muito perspicaz
ao jornal El País, alertou que as redes sociais podem ser uma armadilha:
“A questão da identidade foi transformada de algo
preestabelecido em uma tarefa: você tem que criar a sua própria comunidade. Mas
não se cria uma comunidade, você tem uma ou não; o que as redes sociais podem
gerar é um substituto. A diferença entre a comunidade e a rede é que você
pertence à comunidade, mas a rede pertence a você. É possível adicionar e
deletar amigos, e controlar as pessoas com quem você se relaciona. Isso faz com
que os indivíduos se sintam um pouco melhor, porque a solidão é a grande ameaça
nesses tempos individualistas. Mas, nas redes, é tão fácil adicionar e deletar
amigos que as habilidades sociais não são necessárias. Elas são desenvolvidas
na rua, ou no trabalho, ao encontrar gente com quem se precisa ter uma
interação razoável. Aí você tem que enfrentar as dificuldades, se envolver em
um diálogo. O papa Francisco, que é um grande homem, ao ser eleito, deu sua
primeira entrevista a Eugenio Scalfari, um jornalista italiano que é um ateu
autoproclamado. Foi um sinal: o diálogo real não é falar com gente que pensa
igual a você. As redes sociais não ensinam a dialogar porque é muito fácil
evitar a controvérsia… Muita gente as usa não para unir, não para ampliar seus
horizontes, mas ao contrário, para se fechar no que eu chamo de zonas de
conforto, onde o único som que escutam é o eco de suas próprias vozes, onde o
único que veem são os reflexos de suas próprias caras. As redes são muito
úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha.”
Numa sociedade cada vez mais
individualista, as redes sociais, a par de seu lado lúdico, sujeitas à
contradição entre a solidão real e a comunicação virtual - inocente,
interessante ou cínica - reproduzem esse comportamento, mas possuem potencial
para ajudar na construção de uma sociedade mais solidária. Depende de nós.
quinta-feira, 15 de dezembro de 2016
BAD SANTA
(“Olhe toda essa porcaria. Precisa mesmo de tudo
isso? Pelo amor de Deus, é Natal.”)
Amy
Winehouse é nossa cantora preferida. Falo por mim e minha mulher. Lamentamos
muito sua morte tão prematura, no auge da carreira. Quanta coisa legal poderia
estar fazendo. Mas o que quero contar é que eu e Amy tínhamos algo em comum,
além dos pubs de Camden Town, que conheci quando fiquei um mês e meio em
Londres (isso já é outra história). Ambos compartilhávamos de uma mesma
opinião: o melhor filme de Natal de todos os tempos é BAD SANTA (no Brasil, Papai
Noel às Avessas). Assisti, certa vez, a uma entrevista dela manifestando
sua predileção pelo filme como o top do gênero.
Bad
Santa é uma comédia americana de 2003, produzida pelos irmãos Weinstein e pelos
irmãos Coen, dirigida por Terry Zwigoff e protagonizada por um Billy Bob
Thornton hilário, completamente canalha, fazendo o papel de um vigarista, que
no período do Natal, trabalhando como Papai Noel e associado a um anão que se
fantasia de elfo, sobrevive de roubos a cofres nas lojas de departamentos onde
trabalha.
Todos
os personagens são divertidos. Willie (Thornton) está sempre bêbado, inclusive com
as vestes vermelhas do senhor do Polo Norte recebendo as crianças com seus
pedidos. O anão, Marcus (Tony Cox), sempre leva de casa, ao realizar os
assaltos nos magazines, uma lista de “compras” encomendada por sua mulher. Um
inspetor encarregado da segurança de uma grande loja (Bernie Mac) é uma ameaça
à dupla de assaltantes.
O
garoto de oito anos (Brett Kelly), o kid, grande e gordinho, impassível,
ingênuo e vítima de bullyngs, com quem Willie passa a conviver, já que para o
menino ele é Santa Claus e o bandido não tem onde se esconder, foi um achado de
tão engraçado. Na casa onde Willie se estabelece, o garoto mora com uma avó
esclerosada, que volta e meia parece que está morta mas acorda saltitante para
fazer sanduíches. E a “irmã da Mamãe Noel”, bartender e namorada de Willie, a sensual
Lauren Graham, tem um fetiche pela figura do Papai Noel.
Por
que Bad Santa é o melhor filme de Natal?
1)
Porque é muito engraçado. É o principal papel cômico de Billy Bob Thornton,
onde seu personagem é sempre mal-humorado e ranzinza, mas ao mesmo tempo
simpático. O diretor Terry Zwigoff conta que quando sua agente lhe mostrou o
roteiro advertiu-o que era um filme que nunca seria feito. Ele leu o roteiro no
avião e foi até constrangedor, uma vez que gargalhava em voz alta. “Achei muito engraçado, os diálogos eram
ótimos. Liguei para ela e disse que queria dirigir o filme. E ela me disse: "Boa sorte. Tomara que encontre alguém para fazê-lo.” Felizmente Bob e Harvey
Weinstein tiveram coragem de produzir a comédia e nós também podemos gargalhar
como desvairados.
2)
É politicamente incorreto. As cenas da luta de boxe entre o anão e o menino gordinho,
ou quando Willie dá uma surra num garoto mais velho que batera no kid, sentindo
que fez algo construtivo na vida, são de rolar de rir.
3)
Thornton é um bandido decadente e alcoólatra, mas é capaz de sentir compaixão. Conforme
a atriz Lauren Graham, “ele é um cara
que gosta de beber, fazer sexo e ganhar uma grana fácil”. No entanto, sua
amizade com o kid é inusitada, divertida e, de uma maneira bizarra, redentora. Ele
até critica o “consumismo” do parceiro e sua mulher numa cena sob suspense: “Olhe toda essa porcaria. Precisa mesmo de
tudo isso? Pelo amor de Deus, é Natal.”
4)
É comovente. Tem o espírito natalino. Quase choramos na cena em que Billy Bob
Thornton enfrenta de tudo para entregar o presente de Natal para o garoto, inclusive as balas da polícia...que atira no Papai Noel, para horror das crianças da
vizinhança!
Uma
comédia impagável, incorreta, bizarra, até comovente, mas com o espírito desta
data celebrada no mundo inteiro. Não passem o Natal sem assistir a Bad Santa!
3)
Thornton é um bandido decadente e alcoólatra, mas é capaz de sentir compaixão. Conforme
a atriz Lauren Graham, “ele é um cara
que gosta de beber, fazer sexo e ganhar uma grana fácil”. No entanto, sua
amizade com o kid é inusitada, divertida e, de uma maneira bizarra, redentora. Ele
até critica o “consumismo” do parceiro e sua mulher numa cena sob suspense: “Olhe toda essa porcaria. Precisa mesmo de
tudo isso? Pelo amor de Deus, é Natal.”
4)
É comovente. Tem o espírito natalino. Quase choramos na cena em que Billy Bob
Thornton enfrenta de tudo para entregar o presente de Natal para o garoto, inclusive as balas da polícia...que atira no Papai Noel, para horror das crianças da
vizinhança!
terça-feira, 15 de novembro de 2016
CÓPIA FIEL
(“Esqueça o original. Consiga uma boa cópia.”)
O
mundo do cinema ficou um pouco mais órfão com a morte de Abbas Kiarostami, em
julho de 2016. Principal nome do cinema iraniano que invadiu o Ocidente a
partir da segunda metade dos anos oitenta, com sua temática sensível e
universal, Kiarostami é considerado um dos maiores diretores de todos os
tempos. A definição de Goddard é emblemática: “O cinema começou com D. W. Griffith e terminou com Abbas Kiarostami”.
Deixou
um legado composto por grandes clássicos, como Gosto de Cereja, Através das
Oliveiras, O Vento nos Levará, Close-Up, Onde Fica a Casa do Meu Amigo?, Dez e o extraordinário CÓPIA FIEL (Copie
Conforme), de 2010, coprodução França-Itália-Bélgica, com Juliette Binoche
e William Shimell, filmado no sudoeste da Toscana. Kiarostami, além da direção,
também é responsável pelo roteiro. A fotografia expressiva é de Luca Bigazzi.
Meu
interesse por Cópia Fiel foi renovado pelas conversas com meus amigos
arquitetos e cinéfilos, Paulo Cesa, fã do filme, Joca Petrucci e Renato
Menegotto. Em nossas discussões confirmávamos o que já havia sido escrito na
imprensa: cada vez que revíamos o filme surgiam sempre mais perguntas que
respostas. Cada possível interpretação que desenvolvíamos originava novos
questionamentos. Uma fábula instigante, bela e sutil sobre original e cópia, arte,
percepção, simplicidade, relacionamentos, incomunicabilidade, modernidade,
imagens, reflexos, ilusões e condição humana.
William
Shimell é James Miller, escritor britânico. Juliette Binoche é a proprietária francesa
de uma galeria de arte, cujo nome nunca é revelado. E o ator mirim Adrian
Moore é seu filho Julien.
Podemos
dividir o filme em quatro etapas narrativas, todas interligadas: James palestrando
sobre seu livro na Toscana; Juliette Binoche e o filho pré-adolescente; ela e
James conhecendo-se e ela e James como casal.
Na
palestra sobre seu livro, Copie Conforme, James Miller inicia comentando o
subtítulo provocativo que agregou a pedido dos editores: Esqueça o original. Consiga uma boa cópia. Simultânea à
referência do escritor ao subtítulo, a câmera apresenta a imagem de um menino
em pé a um canto, gesticulando para sua mãe, Binoche, sentada na primeira fila.
Aliás, tanto a mãe quanto o garoto tinham assentos reservados.
James
discorre sobre conceitos de originalidade e cópia. “Minha intenção era mostrar que uma cópia tem importância, que ela
remete ao original e atesta seu valor.” Comenta o tema em termos de
contextualização histórica e faz um paralelo com a reprodução humana. “Afinal, pode-se dizer que somos a réplica
do DNA dos nossos antepassados.”
O
tema cópia e original estará sempre presente em todo o transcorrer do filme,
mesmo que de forma velada.
Binoche
sai mais cedo da palestra porque o filho estava com fome, não parava quieto.
Caminha pelas ruas da cidade italiana sempre à frente do garoto, que a segue
jogando seu videogame. Ele, tranquilo; ela, impaciente. Uma das melhores cenas,
entre tantas ótimas, é o confronto bem-humorado entre o menino e sua mãe, numa
mesa de lanchonete. O garoto tira sarro dela, provocando-a por um bilhete que
deixou para o escritor e pela compra de várias cópias do livro (para serem
autografadas e dadas como presentes). “Sei
que gosta desse James e decidiu se apaixonar por ele, e deu seu número ao amigo
dele pra ele telefonar”. Ela explica que quer saber mais sobre o livro, mas
vai ficando irritada, enquanto o menino, que rouba essa cena, se diverte. Parece
que antecipa um evento que acontecerá mais tarde, ao questionar, rindo: “Por que não quis meu sobrenome na
dedicatória? Eu tenho um sobrenome, sabe?”
James
recebeu o bilhete. Uma das belas cenas do filme é o enquadramento do escritor na
escada entre as paredes antigas do subterrâneo italiano, entrada da loja de
antiguidades de Juliette Binoche. A câmera embaixo acompanhando a descida do
inglês. “Vejo que temos um interesse em
comum”, fala o escritor para a
anfitriã francesa, observando as peças da loja, cópias e originais. “É melhor manter um distanciamento. Elas são
atraentes mas podem lhe fazer mal. Podem ser perigosas à sua maneira. Eu as
estudo, as admiro, escrevo sobre elas, mas também mantenho meu distanciamento.”
O culto às imagens e suas ilusões na civilização
ocidental é um dos temas abordados por Kiarostami, bem exemplificado na
ambientação italiana.
Embora
a ação se passe na Itália, o filme é falado em três idiomas: italiano, francês
e inglês. O diálogo inicial entre a mãe e o filho é em francês; ela e James,
nesse início de contato, comunicam-se em inglês, a língua de James.
Ele
propõe a ela que saiam à rua, o dia está bonito. A francesa o convida para
embarcarem no carro dela e depois um passeio até o vilarejo de Lucignano. Ele
concorda mas faz a ressalva que deve voltar até às 21h para pegar o trem. No
trajeto discorrem sobre vários temas: sentido da existência, diversão, prazer, o
interesse pelo livro dele, arte, cópias e originais (“Jóias falsas são tão boas quanto as originais. Não precisa se
preocupar com elas”, Binoche cita sua irmã Marie), simplicidade (“Não é simples ser simples”, afirma
James; “Qual é o limite entre uma pessoa simples e uma mente
simples?”, pergunta ela; “A resposta
não é simples”, responde o escritor; ela comenta sobre a irmã: “É casada com o homem mais simples do mundo”).
Conta
que o marido da irmã é gago. Quando ele a chama Ma-ma-ma-ma-marie, para ela é
como uma canção de amor.
Num
trecho da estrada, entre as belas paisagens da Toscana, James observa: “Veja esses ciprestes. São bonitos. São
singulares. Você nunca vê dois ciprestes iguais. São árvores antigas. Me
disseram que existe um com mil anos de vida. Originalidade, beleza, idade,
funcionalidade. São as definições de uma obra de arte. Porém, eles não estão
numa galeria. Estão num campo, então ninguém presta atenção.” A discussão cópia versus original questiona os
conceitos da arte e a nossa própria percepção do objeto artístico.
Parecem
duas pessoas que estão se conhecendo, mas aos poucos o tom vai ficando mais
íntimo, ela demonstrando, às vezes, certa animosidade em relação a ele e
sendo sempre o contraponto às teorias do escritor.
Ao
chegarem em Lucignano e depararem com vários casais, de ternos e vestidos de
noiva, ela explica que eles vêm se casar ali porque acham que dá sorte, existe
uma árvore dourada onde juram fidelidade para sempre. “Você se casou aqui?”, pergunta James. Ela não responde, olha
rapidamente para ele e atende o celular que está chamando...
Conversa
ao telefone com a irmã, o filho está aloprando. Queixa-se de sua
irresponsabilidade. Reclama para James que ela é que lida com as consequências,
que paga por isso. James tenta defender o menino: “As crianças vivem para o momento, querem se divertir. Não pensam nas
consequências ou nos custos. Porque é parte do jogo, não é uma despesa.” Mas
não obtém a concordância da mãe.
Binoche
os conduz ao museu onde está exposta uma pintura que chamam de cópia original. “Descobriram que é uma cópia há 50 anos, mas
achavam que era um original por muitos séculos”, explica. De acordo com o
guia de uma excursão, em italiano, “nesse
caso, a cópia é tão bela quanto o original”. James não se mostra muito
entusiasmado. Conforme seu entendimento, os admiradores dizem o quanto adoram a
pintura mas sempre ressaltam que é uma cópia, cujo original está em outro
lugar. “Está em Herculano, isso é fato.
As pessoas precisam saber, não?”, questiona ela. “Por quê?”, retruca James. “Que
diferença faz? O original é uma reprodução da beleza da moça retratada. Ela é o
original. Mas, se você pensar assim, até a Mona Lisa é uma reprodução da
Gioconda. E aquele sorriso? Acha que é algo original, ou Leonardo pediu que ela
sorrisse assim?”
Voltam
às belas ruas do vilarejo.
-
Quer dizer que não há originais? – pergunta a francesa.
-
Não exatamente. Há muitos originais – responde o inglês.
-
Onde?
-
Se me der um café, eu conto.
-
Fica na esquina, estamos chegando. Então, onde está o seu original?
-
Na casa de sua irmã.
-
É mesmo? Na casa da minha irmã? Onde?
-
É o marido dela – responde James sorrindo.
-
Oh, come on...- irrita-se ela. (O marido da irmã é o “homem simples.”)
A
partir do momento que entram na cafeteria de uma senhora italiana, temos um
divisor de águas no filme. Algo que já se insinuava.
Sentados
numa mesa, enquanto esperam o café, Juliette Binoche refere-se ao comentário de
James sobre como surgiu a ideia do livro, na Piazza della Signora, em Florença.
James explica que lhe chamou a atenção uma conversa entre mãe e filho, na
praça, perto da estátua de David. A mãe dizia alguma coisa para o filho sobre a
estátua, em francês. Ela pergunta o que ele achou de especial nessas pessoas. O
inglês responde que naquela época, uns cinco anos atrás, estava em Florença
para uma conferência, mas todas as manhãs observava, de sua janela do hotel, a
mesma mulher descendo a rua. Ela chegava à esquina, parava, e olhava rua acima
até enxergar um garotinho de oito anos, sempre atrás. A mulher “sempre de braços cruzados, como você”,
comenta James. Quando se certificava que o garoto a seguia, continuava. O que o
fascinava era que eles nunca caminhavam juntos. Ela nunca esperava e o menino
nunca tentava alcançá-la. Mas naquela ocasião ele os vira juntos na praça pela
primeira vez. O garoto sentado perto da estátua de David por um longo tempo,
até a mãe se aproximar.
“Isso me parece familiar”, comenta Binoche, agora com lágrimas nos olhos,
transparecendo a emoção que aos poucos se manifestava à medida que James apresentava
sua história. Esse para um pouco, percebe a emoção de sua interlocutora e
entende o que está acontecendo. Pede desculpas meio sem jeito, não sabia. Ela
explica, “eu não estava bem naquela
época”.
Ele
ainda relata que a estátua é apenas uma cópia, o original está na Accademia,
mas a mãe não contou e “o garoto olhava a
estátua como se fosse uma genuína, original e autêntica obra de arte”. O
celular toca e James levantá-se para atendê-lo do lado de fora do café.
A
senhora que trabalha na cafeteria puxa assunto com a moça francesa. Conversam
em italiano. Acha que James é marido dela, que não desmente. Admira-se que ela
fala a língua dele, inglês, e ele não fala a dela. Binoche conta que está há
cinco anos na Itália, primeiro em Florença, depois em Arezzo e, incentivada
pela conversa, confidencia queixas contra o marido, que não lhe dá a devida
atenção, não se importa com ela (“Meu
marido faz a barba dia sim, dia não. O dia do nosso casamento foi de não fazer.”),
só pensa em si e no seu trabalho. A italiana, numa atitude conservadora ou
sábia, defende James e os homens: “Eles
não têm escolha. Para eles, não trabalhar é como não respirar, é impossível”.
James
retorna ao interior do café. A senhora comenta:
-
Estranho ele não falar italiano depois de cinco anos aqui com a sua família.
O
escritor não entende italiano e vira-se para a sua companhia.
-
Ela achou que você fosse meu marido. Eu não a corrigi – explica a francesa.
James,
num princípio de flerte, comenta:
-
Oh, really? Obviamente, fazemos um belo casal. O que acha? O que ela disse?
-
Ela está surpresa por você não falar italiano, já que sua mulher e filho vivem
aqui.
-
Não é totalmente culpa minha. Aprendi francês na escola. O que devo dizer
agora?
Ela
desconversa, mas é a partir dessa pergunta que James Miller passa a incorporar a
cópia fiel do marido de Binoche, algo que ela parecia desejar. Com relação à personagem seu
nome nunca fora pronunciado, e quando da dedicatória para o filho o sobrenome fora omitido, o que o menino percebera. De certa forma era como se ela tivesse a
premonição do papel de esposa do Sr. Miller. O jogo que se insinuava entre eles
agora será mais radical.
James
comete uma declaração infeliz, entrando no espírito do alter ego: “Minha família vive sua vida e eu vivo a
minha. Eles falam sua língua e eu falo a minha. Faz sentido, não?”
Ela
irrita-se enquanto saem do café. Atende o celular, já na rua, e censura o
filho. “É a cópia fiel do pai.” James
retruca um pouco depois: “Não é justo
você me dar o papel do pai ausente”.
Passam
a discutir como se fossem um casal. O que ela reclama do filho, irresponsável,
e ela a responsável, inverte em relação ao suposto companheiro. Critica-o por
trabalhar demais, ser responsável demais, e não viver junto a ela.
Questionamentos,
incomunicabilidade, idiossincrasias, intolerância, ilusões, realidade, a arte,
as diferenças, o masculino, o feminino, tudo isso passa a se manifestar em suas
interações. Mas também, aos poucos, o resgate do afeto, a atração, as belas
recordações.
Após
caminharem um pouco, já mais calma, ela conduz James ao local onde os casais,
devidamente trajados como noivos, todos cópias uns dos outros, nas vestes e nos
sonhos, tiram fotos e fazem as promessas de amor eterno junto à árvore
simbólica. Ela, comovida; ele, irritado com a ingenuidade, com as ilusões.
Na
praça onde fica uma estátua que ela admira (“Está
parecendo seu filho”, ele comenta lembrando-se de Florença), por entender
que seja um símbolo romântico e artístico (uma mulher repousa a cabeça no ombro
de um homem), James encontra-se mais tranquilo, senta ao lado dela na pequena
mureta que rodeia a fonte e passam a conversar em francês (ele falando a língua
dela, mostrando-se mais próximo). Mas continuam discordando, agora pelo teor da
escultura.
Em Cópia Fiel, muitas imagens são apresentadas em superfícies reflexivas (não é
o reflexo uma cópia da imagem original? nossas vidas são reflexos do que
poderia ser original?). Como na cena em que ele admira uma motocicleta, como se
quisesse dar o fora dali, flertasse com sua liberdade, e a imagem de Juliette
Binoche interagindo com os turistas, conversando sobre a estátua, aparece
refletida num espelho vertical e no retrovisor da moto.
Ela
puxa James para ouvir a opinião de um casal de italianos sobre a obra. O
senhor, num momento a sós com o inglês, passa-lhe um conselho: “Acho que a única coisa que ela pede é que
você caminhe ao lado dela e coloque a mão no seu ombro. É só o que ela espera.
Mas, para ela, é vital. Todos os seus problemas poderiam ser apagados com um
simples gesto. Faça esse gesto e liberte-se”. A caminho de um restaurante James
encosta a mão no ombro de sua acompanhante.
No
toilette do estabelecimento, na cena mais icônica do filme, em frente a um
espelho, ela passa batom nos lábios e enfeita-se com brincos. Embeleza-se para
ele. Mas basta um vinho ruim numa trattoria qualquer para reacender o pavio do
rancor e da intolerância. Discutem. Não se entendem. Agora, ele fala inglês,
ela fala francês.
Saem
do restaurante, ela caminhando na frente, ele atrás (como uma cópia dela e o
filho). Temos um belo enquadramento propiciado pelo olhar sensível de
Kiarostami, ambos chegando na igreja histórica e o contraste de escala entre
eles e o prédio. O poder do sagrado presente na transição do estado de espírito
do casal. Ela entra na igreja e ele espera do lado de fora. Estão calmos.
Quando saem, agora uma distância menor entre eles, Juliette Binoche inveja um
casal de velhos à frente, alquebrados e juntos.
Quando ele a alcança sentada nos degraus da entrada de uma pensione, voltam a
conversar em francês. Sobre a ida à igreja, sobre a indiferença dele ao não
reparar que ela se enfeitara: “O problema
é que você não me vê”. Ela, por sua vez, percebera que ele mudara de perfume. Repousa o rosto no ombro dele, tal qual a estátua da praça. “Podia ter feito a barba para mim hoje. Pelo nosso aniversário”, o repreende de
forma carinhosa. “É o hábito. Faço a
barba dia sim, dia não”, explica James (acentuando o tom de fábula,
constante no filme). “Eu sei”, ela
completa.
Entram
no pequeno hotel e James segue a francesa ao mesmo quarto da lua de mel. Ela
está na cama, olhando para ele. É o momento das recordações (“Deitada aqui, assim...eu me lembro de tudo.”);
da ternura esquecida (“Está ainda mais
bela”, flerta James); da reflexão (“Se
fôssemos mais tolerantes com as fraquezas alheias, seríamos menos sós”, conclui
ela); da tentativa de reconciliação (“Fique.
Fique. É melhor. Para nós dois, é melhor. Para você e para mim. Nos dê uma
chance”, é o convite dela).
-
Eu já lhe disse. Preciso estar na estação às 21h - responde James, com a voz
calma, retornando em parte à realidade.
-
Sim, eu sei... – ela concorda .
-
Ja-ja-ja-ja-james – entoa, triste, com ternura, aceitando a situação.
O personagem de James Miller, estereótipo do homem fechado em si mesmo, está sendo posto à prova. Ele
baixa um pouco a cabeça, devolve o olhar terno, levanta-se, e postado em frente
a um espelho, como a cena dela na trattoria, pensa um pouco (é tudo uma ilusão?
ou não?), os sinos da igreja badalam emoldurados pela janela, alisa o cabelo, e
depois de alguns instantes, como que impelido pelos sinos, retorna ao quarto...
Sutilezas,
questionamentos, discussões interessantes e maestria com a linguagem do cinema marcam
o tom da obra de Abbas Kiarostami. E grande parte do vigor do filme, como
componente vital, deve-se creditar à interpretação emotiva e sensível de
Juliette Binoche, premiada em Cannes por esse desempenho. Suas cenas em close,
contracenando com a câmera, são grandes momentos de magia cinematográfica.
A
riqueza de Cópia Fiel proporciona vários olhares diferenciados por quem
assiste, mas o importante é que a emoção e a beleza estão presentes com toda
sua força. Em cópia ou original.
Quando ele a alcança sentada nos degraus da entrada de uma pensione, voltam a conversar em francês. Sobre a ida à igreja, sobre a indiferença dele ao não reparar que ela se enfeitara: “O problema é que você não me vê”. Ela, por sua vez, percebera que ele mudara de perfume. Repousa o rosto no ombro dele, tal qual a estátua da praça. “Podia ter feito a barba para mim hoje. Pelo nosso aniversário”, o repreende de forma carinhosa. “É o hábito. Faço a barba dia sim, dia não”, explica James (acentuando o tom de fábula, constante no filme). “Eu sei”, ela completa.
O personagem de James Miller, estereótipo do homem fechado em si mesmo, está sendo posto à prova. Ele baixa um pouco a cabeça, devolve o olhar terno, levanta-se, e postado em frente a um espelho, como a cena dela na trattoria, pensa um pouco (é tudo uma ilusão? ou não?), os sinos da igreja badalam emoldurados pela janela, alisa o cabelo, e depois de alguns instantes, como que impelido pelos sinos, retorna ao quarto...
sexta-feira, 9 de setembro de 2016
LUA DE FEL
(“Fomos muito ambiciosos, baby.”)
Assisti
várias vezes LUA DE FEL (Bitter Moon),
de 1992, grande sucesso de Roman Polanski. Diretor reconhecido como um gênio do
cinema, com um currículo que inclui filmes antológicos como A Dança dos
Vampiros, O Bebê de Rosemary, Chinatown, Repulsa ao Sexo, O Pianista,
entre outros.
Entre
os grandes filmes de Polanski, Lua de Fel é o épico do amor e ódio, intenso e
obsessivo. Uma ópera sobre paixão e destruição.
Com
sutilezas de humor aqui e ali e uma trilha sonora perfeita, o diretor polonês
equilibra uma narrativa forte, fluente e visualmente fascinante, tornando seu
filme um deleite para os olhos e sentidos, sem perder a profundidade de seu
tema.
São
quatro personagens principais. Dois casais: Oscar (Peter Coyote), escritor
americano frustrado, vivendo em Paris (clichê satírico e charmoso), preso numa cadeira de rodas, e Mimi (Emmanuelle
Seigner), sua voluptuosa esposa francesa; e os discretos ingleses Nigel ( Hugh
Grant) e Fiona (Kristin Scott Thomas), passando pelo período de sete anos de
casamento. Todos a bordo de um transatlântico, num cruzeiro marítimo rumo a
Istambul, interagindo entre jogos de sedução e flashbacks, acompanhados pela
bela trilha sonora de Vangelis e por sucessos pop.
O
filme é uma dança entre vários relacionamentos: Nigel e Mimi, Nigel e Oscar,
Fiona e Nigel, Mimi e Fiona e, o mais radical, a história principal, Oscar e
Mimi.
Mimi
protagoniza o primeiro contato com o casal de ingleses. Não se sente bem no
toilette, é acudida por Fiona, que pede ajuda a Nigel. Conduzem-na para uma
cadeira no convés. Ela pergunta a Fiona se vão para Istambul. “Sim, e depois vamos voar para Bombaim. E
você?”, retorna a inglesa. “Mais
longe. Bem mais longe”, é a resposta enigmática de Mimi.
À
noite, Hugh Grant, com aquele seu jeito de inglês paspalhão, volta a encontrar
Mimi no bar. Sente atração pela beleza da jovem francesa e isso é o estopim
para o desenrolar dos acontecimentos no navio.
É
também a deixa para a entrada em cena de Peter Coyote. Após o bar, Nigel está
no convés quando surge Oscar e apresenta-se como marido de Mimi. “Veja o que ela me fez”, e descobre suas
pernas na cadeira de rodas em que se locomove com dificuldade. Provoca o
inglês: “Você queria trepar com ela.
Admita, não é crime”. Nigel, um pouco desconcertado, balbuciando alguma
coisa, sem conseguir negar, segue ouvindo Oscar. “Está louco para saber mais sobre ela, não é?” continua o americano.
Convence Hugh Grant a levá-lo para sua cabine e ouvir o que tem a dizer: “Não conheço você, Nigel, mas tenho a
impressão de que é exatamente o ouvinte que eu procurava. Espero que ache minha
história interessante”.
Em
seus aposentos, Oscar passa a contar a história dele e Mimi para um Nigel
constrangido mas curioso. Passamos para a narração em flashback. Oscar em
Paris, sem conseguir publicar nada, filho de uma família rica, mas, what a
hell, era Paris!! O que importava? Conta como encontrou Mimi. Como se
conheceram no ônibus 96 entre Montparnasse e Porte des Lilas. Ela apaixonada,
ele sentindo-se no paraíso, seus jogos de amor, volúpia e sexo. Um idílio
inebriante, o delírio dos amantes.
Oscar
vai contando sua história por partes. Mais tarde, encontra Nigel e Fiona no
restaurante. “Toda relação, mesmo
harmoniosa, contém sementes de farsa ou de tragédia”, comenta com o casal,
seu humor ácido sempre presente.
Entre
idas e vindas de Nigel à cabine do americano, a narrativa continua. O êxtase do
amor, mas, depois, também, as primeiras brigas, as primeiras decepções, o tédio.
Qual é o ponto em que o amor vira o fio? Em que o desinteresse substitui o
ardor? Oscar deriva para estas inflexões.
“As estações iam e vinham. O rosto de
Mimi ainda tinha mil mistérios para mim. Seu corpo, mil promessas de doces.
Mas, no fundo de minha mente, havia o medo de que já havíamos chegado ao auge
do nosso relacionamento e que, agora, ele começaria a desmoronar”.
Após
um incidente sexual inesperado, “abriu-se
todo tipo de possibilidades”. “Nós nos fechamos com nossos brinquedos semanas a
fio, sem sair, vendo somente um ao outro. Acho que era pedir demais para
qualquer casal.”
Numa
danceteria em Paris, recorda Oscar, Mimi provocou seu ciúme numa performance
sensual com um colega da escola de dança. “Sempre
achei a infidelidade o aspecto mais estimulante de uma relação. Aquela cena
devia ter me excitado. Por que não me excitou? Por que fiquei tão magoado?”
Veio
a briga e as pazes. “Eu também a amava, mas estávamos caminhando
para uma falência sexual”. As brincadeiras eróticas não tinham mais graça. “Finalmente o encanto estava desfeito.”
Na
sessão seguinte, Nigel demonstra impaciência com os jogos de Oscar e Mimi para
com ele. O americano justifica a brincadeira feita e explica a vontade da esposa
francesa: quer que ele conte o resto da história, para que ela possa ter
chances com Nigel. Esse externa seu mal-estar com o jogo aberto (“Você é um cafetão?”) mas Oscar não se
perturba: “Não a censuro por procurar o
que já não posso oferecer. Supervisiono os casos dela, em vez de me submeter a
eles. Você pode tê-la, Nigel, com minha benção, mas com uma condição.
Ouvir-me!”
O
inglês se acalma e senta na cadeira de rodas do interlocutor. “Tenha compaixão, Nigel. Não seja duro com
um homem destruído por um amor intenso demais. Os casais deviam se separar no
auge da paixão e não esperar até o inevitável declínio.”
“Meu desejo por ela havia começado a
diminuir. Lá estava ela deitada, maravilhosa, voluptuosa. E não significava
nada para mim. Ressentia-me do fato de que ela não me excitava mais como antes.
Estávamos ficando dependentes da televisão, que permite que os casais se aturem
sem precisar conversar.”
“Passei a recear a hora de dormir.
Sentia uma tremenda vontade de dormir. Eu ficava com pena dela. Deitada, seu
corpo gritando, ávido, os órgãos em tumulto. Apertava meus lábios contra os
dela como se amassa um cigarro em um cinzeiro.”
“Sentia-me como um rato numa armadilha.
Paris vibrava com seus ritmos frenéticos. Batiam em minha cabeça,
enlouqueciam-me. Eu queria variedade. Tinha fome de barulho e excitação.”
Oscar
tentou terminar o romance. “Estou me
destruindo ao lhe destruir”, falou para Mimi, continuando sua história.
Nigel ouvindo. “Estamos nos destruindo,
pelo amor de Deus. Vamos preservar uma bela recordação. Vamos nos separar
enquanto nos resta dignidade.”
Nunca
é fácil encarar uma separação. Se no navio Mimi é uma femme fatale, naqueles
dias de Paris, antes de sua vingança, era apenas uma garota que se recusava a aceitar
o fim implacável daquilo que já não se sustentava. Humilhou-se. Foi humilhada. Libertou-se
o inferno. Retornou e devolveu a mesma crueldade. (“Idiota. Achou que eu tivesse esquecido?”)
O
relacionamento de Nigel e Fiona também é posto à prova. Essa, percebendo
claramente o novo interesse do marido, alerta-o: “Watch, Nigel. Anything you can do, I can do better.” Depois, ela
provará sua afirmativa em uma das cenas mais sensuais do filme.
Nigel
continua suas sessões com Oscar. Esse comenta seu casamento com Mimi: “Precisávamos um do outro, ela e eu. Era uma
espécie de catarse, eu acho. Sabíamos que não alcançaríamos os mesmos extremos
de paixão e crueldade com mais ninguém.”
Oscar
e Mimi, de certa forma, se reconciliam ao final. De uma maneira estranha,
trágica, definitiva. Entendemos as palavras da garota no início do filme (“Mais longe. Bem mais longe.”). Como se
esse desfecho fosse esperado. Em algum momento. E desejado.
Entre
cenas no navio e recordações de Paris, Polanski vai construindo e
desconstruindo o processo de uma relação obsessiva, fervorosa e desgastante. Do
amor ao ódio (as duas faces da mesma moeda?). A transmutação dos sentimentos é
o mote que o diretor desenvolve nessa vertigem que envolve seus personagens,
como se fosse um embate sórdido entre Eros e Thanatos. Toda essa epopeia pode
ser resumida nas últimas palavras de Oscar:
Fomos muito ambiciosos, baby.
Assinar:
Postagens
(
Atom
)







