terça-feira, 24 de setembro de 2019

NETTO PERDE SUA ALMA

(“Nós lutávamos por ideias.”)





Desde os pioneiros Mário Peixoto e Humberto Mauro, passando pelo tempo das produções do Estúdio Vera Cruz, na década de 50, o período do Cinema Novo, nas décadas de 60 e 70, e a fase dos grandes diretores como Glauber Rocha, Nélson Pereira dos Santos, Rogério Sganzerla e Walter Hugo Khouri, o cinema brasileiro sempre foi um polo interessante no hemisfério sul. Enfrentou dificuldades no Governo Collor mas recuperou-se e ressurgiu com títulos de destaque internacional como O Quatrilho, O Que É Isso, Companheiro?, Central do Brasil, Cidade de Deus e Tropa de Elite. Nos últimos anos apresentou obras-primas como Rasga Coração, de Jorge Furtado, Nise - O Coração da Loucura, de Roberto Berliner, Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert, Aquarius e Bacurau, de Kleber Mendonça Filho, entre outras.

O cinema gaúcho, em particular, que se destacou no formato super-8 e depois marcou presença no longa, viveu um grande momento no lançamento de NETTO PERDE SUA ALMA, de Beto Souza e Tabajara Ruas, em 2001.

Na época, assisti ao filme no Guion Center, cinema com programação diferenciada no Centro Comercial Olaria, um pequeno shopping a céu aberto em Porto Alegre. Na saída, eu e minha esposa encontramos Beto Souza (somos amigos desde o tempo da faculdade de Arquitetura) num bar dentro do mesmo shopping e conversamos sobre o filme. Sem dúvida, foi uma experiência inusitada em minha vida. Na saída de uma sessão de cinema, encontrar e discutir o filme com o próprio diretor!

Conforme Beto havia me explicado, Tabajara Ruas, o autor do romance histórico que inspirou o filme, foi responsável pela direção dos atores, enquanto o próprio Beto Souza se responsabilizou pelo processo de filmagem propriamente dito.

As premiações conquistadas pelo longa são atestados de sua qualidade: Melhor Filme – Júri Popular, Melhor Montagem (Ligia Walper), Melhor Trilha Sonora (Celau Moreira) e Prêmio Especial do Júri no Festival de Gramado; Melhor Roteiro (Tabajara Ruas, Rogério Ferrari, Ligia Walper, Fernando Marés e Beto Souza), Melhor Direção de Arte (Adriana Nascimento Borba), Melhor Ator Coadjuvante (Sirmar Antunes) e Prêmio Especial do Júri no Festival de Recife; Melhor Ator (Werner Schünemann) e Melhor Direção de Arte no Festival de Brasília; Melhor Fotografia (Roberto Henkin) no Festival de Cinema de Huelva / Espanha; Melhor Filme – Diretor Estreante no Festival de Cinema de Trieste / Itália; e indicações para Melhor Ator e Melhor Roteiro Adaptado no Grande Prêmio Cinema Brasil.

Épico gaúcho, e ao mesmo tempo um drama intimista, Netto Perde Sua Alma conta as recordações e angústias do general Antônio de Sousa Netto (Werner Schünemann), em recuperação num hospital em Corrientes, Argentina, sobre sua participação na Revolução Farroupilha e na Guerra do Paraguai, e seu romance com a bela estancieira Maria Escayola (a atriz uruguaia Laura Schneider), durante seu autoexílio em Piedra Sola, no Uruguai. Concomitante com as lembranças provocadas pela visita do amigo sargento Caldeira (Sirmar Antunes), ex-escravo e companheiro de batalhas, o oficial enfermo precisa lidar com eventos sinistros no próprio hospital, que exigirão dele uma postura radical coerente com seus princípios. Netto encarna o herói clássico, mas não isento de contradições.

Netto não só é um dos melhores filmes gaúchos, como também um dos principais filmes brasileiros sobre conflitos históricos e pessoais. E o conflito racial é abordado pela figura do jovem personagem Milonga (Anderson Simões), alistado no Corpo de Lanceiros Negros, posteriormente julgando-se traído pelos ideais em que acreditava.

Além da narrativa clássica de fundo histórico, sempre um prazer quando a serviço de uma boa estória, o fascínio do épico gaúcho vem de uma inspirada produção como um todo. Direção, roteiro, interpretações, direção de arte, figurino, montagem, fotografia, música. Tudo é desenvolvido com rara competência e entrosamento. E sobretudo a força das imagens criativas, expressivas e alegóricas.

Assim como David Lean filmou o deserto em Lawrence da Arábia, Beto registrou as paisagens e fauna gaúchas com apurado requinte técnico, como metáfora para o sonho de Netto, aquelas extensas pradarias que poderiam vir a ser um novo país, uma democracia, em alternância com as cenas intimistas e em contraste com o clima sombrio e amargo das recordações no hospital de Corrientes.

Netto Perde Sua Alma não deixa também de ser um western. Uma cena em particular lembra Sergio Leone: o duelo no córrego entre Netto e o capitão Teixeira contra os quatro ladrões de cavalos.

Duelos são representações e sínteses de conflitos. Em Netto, os conflitos são a própria essência do filme. São sociais e pessoais. Vingança, traição, frustração, revolta, idealismo, impotência, ingenuidade. Para dar vida ao general Netto, um personagem no centro desse turbilhão, o carisma de Werner Schünemann foi fundamental. Num dos bons momentos do filme (que são muitos) ele conversa com o sargento Caldeira no hospital à noite, numa cena tão sombria quanto as almas desiludidas daqueles homens: “Nós lutávamos por ideias”, conta o general referindo-se à Revolução Farroupilha. Quanto à Guerra do Paraguai, “atrai mercenários vindos de toda parte, pagos a peso de ouro. Agora se luta por ouro, sargento!”

Netto é atormentado por seus demônios. No cenário da igreja e imediações em Triunfo, após a derrota farroupilha (o recurso da bandeira que se transforma em farrapos é uma metáfora interessante), durante uma das principais cenas cujo desfecho vai sendo apresentado à medida que se alternam as figuras de Milonga e Netto, o general argumenta com um colega de armas porque está se retirando para o Uruguai ao invés de continuar atuando politicamente: “Nas conversas pelo acordo de paz, todos os meus pontos de vista foram vencidos. [...] O que me corrói é o destino dos negros que lutaram pelos republicanos. Só eles perderam.” Milonga também pensava assim.

Em meio ao sangue, dor e sentimento de fracasso, há espaço para o lirismo do romance entre Netto e a senhorita Maria nos verdes campos do Uruguai. Que a guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai iria interromper.

A última cena, poética e soturna, é o desfecho brilhante condizente com o padrão elevado de criatividade e qualidade de toda a produção. Uma cena “bergmaniana”, conforme o crítico Luiz Carlos Merten. À beira de um rio denso emoldurado pela noite e névoa, Netto despede-se do amigo Caldeira: “Toda essa gente que eu matei, sargento, me dá um peso enorme no coração.” Com a aproximação do barqueiro sinistro, uma sombra singrando as águas escuras do mistério, sua canoa deslizando lentamente, o general completa: “Essa travessia a gente deve fazer sozinho mesmo”. Tranquiliza a figura lúgubre: “Não se assuste que eu não vou fugir.” Netto despede-se ao som da música sóbria e delicada de Celau Moreira com a mesma nobreza com que amou, lutou por seus ideais e confrontou seus dilemas.  A mesma nobreza que caracteriza o filme. Uma nobreza que, pode-se dizer, vem da tradição literária e cultural gaudéria.

Beto e Tabajara, militantes na cena cinematográfica gaúcha, coautores na mesma aventura, conquistaram um mérito indiscutível: a composição de um clássico nacional fincado em raízes regionais e capaz de extrapolar fronteiras.




                                                   

domingo, 30 de dezembro de 2018

O HOMEM AO LADO

(“Somente necessito de um pouco de sol que a você sobra.”)



 
       (Photo by Consuelopumara - Own work)


O HOMEM AO LADO, de 2009, direção de Mariano Cohn e Gastón Duprat, é um exemplo representativo do vigor da produção cinematográfica na Argentina. Um brilhante filme sobre inversão de expectativas. E uma alegoria sobre as sociedades divididas em classes sociais e a interação contraditória entre elas, especialmente quando mundos diferentes são colocados em confronto.

Destaque especial para as elogiadas interpretações de Rafael Spregelburd, como Leonardo, e Daniel Aráoz, como Víctor.

Uma família de intelectuais da classe média, ele, Leonardo, professor de design, ela, Ana, professora de ioga, mais a filha pré-adolescente e a empregada doméstica, moradores da Casa Curutchet, em La Plata, são surpreendidos pelo vizinho proletário, Víctor, quando este começa a abrir uma janela na parede contígua à Casa, com o argumento que necessita de sol naquele lado de sua residência. No entender dos chamados burgueses isso configuraria uma invasão de sua privacidade. Mas aquele que consideram um “troglodita” está determinado em seu objetivo e mostra-se insensível aos argumentos de que sua empreitada é ilegal. Com o conflito um toma consciência do outro.

A Casa Curuchet, clássico do Modernismo, projetada em 1948 pelo lendário arquiteto Le Corbusier, é um personagem a parte no filme, com sua liberdade espacial e transparência, sua implantação e diálogo com o entorno, seu desenho geométrico, jogo de cheios e vazios e planos horizontais e verticais. Conforme depoimento numa cena em que um professor de arquitetura apresenta a edificação a seus alunos, ela é “A única casa que Le Corbusier projetou em toda América. Uma pequena obra-prima que combina simplicidade, conforto, harmonia...” Além de oferecer uma ambientação espetacular ao filme, a Casa representa o status social da família classe média e sua pretensão intelectual, o chamado bom gosto.

Uma família culta e aparentemente civilizada. O aparentemente é o principal tema do filme.

Do outro lado do conflito está o vizinho brega, o considerado mau gosto.

Conforme a filósofa Marcia Tiburi em seu excelente livro Ridículo Político, ao citar O Homem ao Lado, “Os regimes de comportamento ético e estético de cada personagem expressam-se em tensão. [...] O filme mostra que julgamos pelas aparências e quase sempre nos enganamos redondamente, não porque as aparências enganem, mas porque não olhamos com cuidado.”

Fazendo a ressalva que é aconselhável assistir ao filme antes de continuar a leitura, Marcia Tiburi é precisa em sua análise. Adianto que o final é surpreendente, mas os diretores Cohn e Duprat aos poucos nos fornecem pistas sobre as aparências não serem bem o que parecem.

Não olhamos com cuidado, mas algumas cenas vão revelando o perfil de Leonardo, o “respeitado” intelectual, e preparando o desfecho inusitado: a cantada na aluna, a grosseria com o tio doente mental de Víctor, o desconforto e falta de consideração para com os presentes que receberam do vizinho indesejável, a arrogância com que trata os alunos, o preconceito de classe explicitado na conversa com amigos, a intransigência da esposa, um momento de impaciência com a própria mulher, o voyeurismo dirigido à janela do vizinho (exatamente o que desconfiavam deste).

Interessante como o primeiro diálogo entre os dois personagens principais, Leonardo e Víctor, já traz indicação do que seria sugerido ao longo do filme. Leonardo, da janela de sua casa, contendo sua irritação, tenta argumentar com Víctor, que surge no buraco da parede deste, que ele não pode abrir aquela janela. Este responde, como um puxão de orelhas no interlocutor sem educação: “Vamos por partes. Boa tarde. Eu sou Víctor. A quem tenho o prazer?” Como se o burguês não considerasse seu vizinho proletário digno de um cumprimento, dada sua inferioridade social. Naquele momento, já se insinuava a arrogância do personagem intelectual classe média.   

Pelo lado do personagem bronco, reparamos depois de um tempo que sua postura, apesar da falta de polimento, é sempre mais amistosa, quase querendo iniciar uma amizade. Defende o tio deficiente quando o julgou ofendido, oferece presentes e flores, apresenta depois uma bela namorada e consegue interagir com a filha do casal burguês, o que o próprio pai não conseguia. Apesar de no início parecer ameaçador revela-se depois mais generoso e afetivo.

O final cai como um soco em nossa sensibilidade distraída e identificada com aqueles que são detentores da máscara de respeito e bom gosto. Inverte nossa expectativa e inverte nossos valores. O fetichismo das imagens em contraste com a arquitetura-verdade de Le Corbusier e do Modernismo. Apesar dos sinais, na realidade nos recusávamos a enxergar naqueles que julgamos nossos pares atitudes distintas das aparências que a classe média cultiva para si. Aparências tão hipócritas quanto legitimadoras do status quo e suas diferenças de classes.

O Homem ao Lado é um grande filme que nos confronta no espelho.




quinta-feira, 20 de setembro de 2018

O QUARTO DE JACK

(“Há lugares demais no mundo. Há menos tempo, porque o tempo tem de ser espalhado bem fininho por todo lugar, como manteiga.”)




O QUARTO DE JACK (Room), produção canadense-irlandesa de 2015, entre os filmes que assisti nos últimos anos é um dos que mais me surpreendeu. Não esperava que fosse tão bom.

O diretor Lenny Abrahamson e a roteirista Emma Donoghue, autora do próprio romance em que se baseia o filme, conseguiram, com um resultado muito bacana, combinar drama familiar, mistério, suspense, crítica social e nossa capacidade de enternecimento pelas crianças. Pode-se dizer que esse último fator é o mais destacado. Ao lado da interpretação oscarizada da atriz Brie Larson como Joy Newsone, a mãe do menino, atuação muito legal, e a par da química excepcional que rolou entre ambos, no entanto é o ator mirim Jacob Tremblay como Jack que rouba quase todas as cenas e sobre cujo olhar inocente, irresistível à nossa comoção, o filme se estrutura.

Uma observação: esse é um filme sobre o qual comentários não devem se alongar. Quanto menos spoilers melhor. Portanto, se você ainda não viu a fita, pare tudo, vá lá, assista ao filme, enjoy the program e volte para prestigiar este modesto espaço.

Quase todo o desenrolar de O Quarto de Jack é acompanhado pela ótica do pequeno menino de cinco anos, o próprio Jack. Mesmo quando ele não é o protagonista direto da ação, está quase sempre por perto, espreitando, atento, observando com seu olhar curioso. Ao mesmo tempo testemunhamos a luta da mãe, seus conflitos, sua obstinação em proteger e preparar o filho para um mundo que ele desconhece.

A primeira parte do filme é puro suspense. Pelo ponto de vista de Jack compartilhamos sua crença naquele mundo que lhe foi apresentado. Uma realidade na qual o quarto é um personagem importante. E depois o momento em que suas ilusões são questionadas e sua vida de criança precisa amadurecer e ganhar coragem para sobreviver.

Na segunda parte, quando praticamente começa a descobrir o mundo real - a descoberta do mundo pelos olhos de uma criança - simples visões de postes e fios, árvores e nuvens são quase capazes de nos levar às lágrimas.

A liberdade traz novos desafios para a mãe e o menino.

Acompanhamos as dificuldades de Joy, sempre ao lado do filho, em se readaptar à vida da qual fora afastada, os conflitos familiares e o enfrentamento de preconceitos e juízos morais por parte de quem não sofreu na pele o drama do qual foi vítima.

Para Jack, à medida que vai se inserindo no novo mundo muita coisa lhe parece estranha, e ao mesmo tempo é sensível ao momento da mãe, como na cena em que a bela melodia do piano da trilha sonora conduz seus pensamentos:

“Há lugares demais no mundo. Há menos tempo, porque o tempo tem de ser espalhado bem fininho por todo lugar, como manteiga. Todas as pessoas dizem: Rápido. Vamos depressa. Aperte o passo. Termine agora. Mãe estava com pressa de chegar ao céu, mas me esqueceu. Boba mãe. Então os ETs a jogaram de volta pra cá, e a quebraram.”

Por fim, Jack e sua mãe foram obrigados a fazer uma última visita ao Quarto. Precisavam enterrar no passado o trauma que vivenciaram juntos e o menino se despedir de um lado afetivo ainda presente em suas lembranças. Para o pequeno Jack, aquele espaço, onde realidade e fantasia se confundiam e moldavam o mundo que ele conhecia até então, deixou marcas contraditórias em seu espírito. Contradições que a liberdade da qual passa a usufruir exige a ultrapassagem e o abandono das referências carinhosas que marcaram sua infância naquele universo entre quatro paredes.




sexta-feira, 18 de maio de 2018

O TALENTOSO RIPLEY

(“Eu sempre achei que seria melhor ser um alguém falso que um ninguém verdadeiro.”)



 


Vivi a experiência de ser proprietário de videolocadora. Eu e minha mulher atendíamos no balcão. Foi uma grande escola. Sobre cinema e sobre a espécie humana. Minha esposa gosta de comentar que aprendeu “a conhecer as pessoas”.

Certa ocasião duas amigas se encontraram em nossa loja. Depois dos cumprimentos, uma delas, uma senhora de mais idade, perguntou: “E então? Tens ido aos Estados Unidos?” A outra, uma mulher interessante, rica, gay, bela e charmosa respondeu, com uma classe que sempre nos impressionava: “Não. Prefiro a Europa. Estou apaixonada por Positano. América já não me seduz.” Achamos o máximo aquela resposta.

O TALENTOSO RIPLEY (The Talented Mr. Ripley), de 1999, um clássico do final do século XX, direção de Anthony Minghella, é um filme sobre americanos para quem “América já não seduz”.

É também um filme sobre quem despreza. Cate Blanchett, no papel de Meredith Logue, filha de um rico industrial do ramo têxtil, explica melhor conversando com Matt Damon (Tom Ripley fazendo-se passar por Dickie Greenleaf) na escadaria da Plaza España, na Roma dos anos 50: “A verdade é que, se você teve dinheiro a vida toda, mesmo desprezando-o, e nós desprezamos, concorda? você só fica à vontade entre gente que tem e despreza.”

Além de Meredith, temos uma turma de personagens que também desprezam, consumindo na Itália, sem nenhum pudor, as mesadas enviadas pelos pais ricos: Dickie Greenleaf (Jude Law), filho de um milionário do ramo naval responsável por contratar Tom Ripley, como suposto amigo do filho, para convencer Dickie a voltar para a América; Marge Sherwood (Gwyneth Paltrow), escritora, namorada do rapaz milionário; e Freddie Milles (Philip Seymour Hoffman), amigo de Dickie, bon vivant, especialista em gastar mesadas.

No meio deles está Tom Ripley (Matt Damon). Esse não despreza; pelo contrário, mataria por isso.

Um dos principais méritos do filme, além de sua qualidade, é apresentar a obra da grande escritora norte-americana Patricia Highsmith e seu principal personagem de vários livros, o anti-herói Tom Ripley, um sujeito com muitas habilidades e moral tanto enviesada quanto particular.

Essa é a segunda adaptação de O TALENTOSO MR. RIPLEY, de Highsmith. A primeira foi O SOL POR TESTEMUNHA (Plein Soleil), filme francês de René Clément, de 1960, com Alain Delon no papel de Tom Ripley. Outros bons filmes também exploraram o universo de Highsmith, com ou sem Ripley. Em especial Pacto Sinistro (Strangers on a Train), de Alfred Hicthcock, e o recente Carol, de Todd Haynes, estrelado por Cate Blanchett, baseado no livro onde a própria autora cria uma ficção baseada em experiências pessoais.

The Talented Mr. Ripley é a obra mais famosa de Patricia Highsmith e onde Tom Ripley faz sua estreia, livro que elegi como integrante do meu rol afetivo de leituras, aqueles que são nossos favoritos. A escritora é um dos maiores nomes da literatura policial psicológica e seu talento extrapola os limites do gênero. Seu personagem emblemático, o amoral Tom Ripley, move-se por um universo criado pela escritora onde claustrofobia e apreensão são conceitos sempre presentes, conforme observou o renomado escritor inglês Graham Greene, outro mestre da literatura de suspense. Por esses caminhos Highsmith vai a fundo na investigação do lado obscuro da alma humana. Aqueles recônditos, além da moral, onde nossas motivações, às vezes confusas, às vezes contraditórias, convergem para um único objetivo: nós mesmos. Sombrio, mas humano, sincero. Existe sinceridade maior que o egoísmo?

Assim é Tom Ripley. Um cara que pensa em se dar bem, não importam os meios. Em O Talentoso Ripley ele se move entre jovens burgueses ricos e desocupados, admirando-os e invejando-os, e ao mesmo tempo cresce um sentimento de revolta por considerar que aqueles filhinhos de papai, que passam depois a recusar sua companhia, não merecem aquela vida rica de ócio e prazer na Europa, alheios à luta pela sobrevivência na América, e que ele sim, ele, Tom Ripley, com suas habilidades, é que mereceria aquele estilo de vida. Ele saberia valorizar e deveria ter nascido para aquilo. Como a vida é injusta, como não é ele o privilegiado? “Eu sempre achei que seria melhor ser um alguém falso que um ninguém verdadeiro”, repete para si mesmo, justificando a correção radical que talha com enorme astúcia, talento e fúria contra a injustiça do mundo.

No filme de Anthony Minghella, as locações não são na Positano de nossa amiga da locadora, mas na paradisíaca e fictícia Mongibello, costa da Sicília, mais Roma, Veneza e Nova York. A versão do diretor inglês captura o espírito do livro, o pensamento individualista e contraditório de Ripley, sua ambição, o clima de tensão que se estabelece aos poucos e acentua-se após o evento drástico que altera a narrativa, assim como a elegância da ambientação e as personalidades dos protagonistas, desenvolvidas sem decepcionar a profundidade conferida por Highsmith. O filme é muito bom, assiste-se sempre com muito prazer.

A versão de Minghella, como praticamente em quase todas as adaptações das páginas da literatura para as telas, tem diferenças em relação ao romance, mas é fiel à essência da obra. Algumas dessemelhanças são mais significativas. No filme Ripley é assumidamente gay. No livro, o relacionamento entre os dois personagens principais, Ripley e Dickie Greenleaf, é pontuado por um viés homossexual que nunca se confirma, fica sempre nas entrelinhas (assim como em Pacto Sinistro); e no caso de Tom Ripley ele sofre por não assumir, por não entender direito os sentimentos que nega com veemência. Na sequência do barco, momento-chave da narrativa, Minghella a apresenta como o clímax violento de um desentendimento, e depois, a troca de identidades é colocada como uma possibilidade aproveitada por Tom; no livro a escritora expõe a irritação, a revolta (com o mundo, com Dickie, com a rejeição) e a premeditação que surge como um insight perverso e brilhante.

O filme centra-se principalmente na ambição de Ripley, na troca de identidades, no desejo do personagem de ser “alguém” a qualquer custo, o que aparece sugerido em cenas da primeira parte, como quando ele finge ser Dickie Greenleaf, ao conhecer Meredith Logue, e depois ao experimentar as roupas do próprio, cena comum no filme e no livro. Na obra original, Patricia Highsmith enfatiza o caráter enviesado de Tom Ripley e os caminhos tortuosos por onde sua mente o leva. A psicologia do personagem é dissecada como se um cirurgião observasse o fluxo do sangue correndo pelas veias abertas de um cérebro implacável, inquieto, contraditório, pulsante, intenso, sofrido, sensível e sobretudo empenhado no que é melhor para si.

Em O Sol Por Testemunha, René Clément filma uma versão bem mais livre em relação ao romance original. Um bom policial francês, coerente com a essência do livro em que se baseou. Mas tanto o filme de Clément quanto o de Minghella têm um ponto em comum significativo: os finais são moralistas. No primeiro Ripley é desmascarado pela justiça institucional; no segundo é castigado por sua angústia e pelos caminhos infelizes que seus crimes o levam. Já no romance de Highsmith, ao perceber no final que não será pego, Tom Ripley está mais esfuziante do que nunca, comemorando seu sucesso e solto para novas aventuras nos livros que viriam a seguir.

O mundo particular de Patricia Highsmith, nas páginas ou nas telas, é sempre uma experiência pela qual não se passa incólume. A capacidade de criar uma realidade própria e ao mesmo tempo universal é marca dos grandes escritores. Some-se a criação de um personagem como Tom Ripley, ícone da literatura policial, representação do que possuímos de mais humano e assustador, e temos a prova incontestável da genialidade da escritora norte-americana.






sábado, 25 de novembro de 2017

CISNE NEGRO / MÃE !

(“Você nunca me amou! Você ama o amor que dedico a você!”)



 


Se ficção científica e filosofia é uma associação obrigatória como garantia de qualidade do gênero, terror e psicologia é outra combinação que se impõe da mesma maneira. Darren Aronofsky, cineasta norte-americano, com CISNE NEGRO (Black Swan), 2010, e MÃE! (Mother!), 2017, revela-se como representante visceral dessa corrente. Digamos, de maneira simplificada, que o cara faz filmes de terror de arte. E apresenta-se como legítimo interlocutor e defensor da alma feminina, retratando mulheres frágeis, oprimidas, aparentemente indefesas, que se transformam na defesa de seus sonhos e de seu mundo. Ambos os filmes, narrados do ponto de vista das protagonistas femininas, são fábulas perturbadoras, expressivas e cinema de apurado requinte técnico.

Em Cisne Negro, Natalie Portman é Nina Sayers, bailarina do New York City Ballet promovida para o papel de Rainha Cisne, numa versão moderna do ballet clássico O Lago dos Cisnes, no qual interpretará tanto o Cisne Branco como o Cisne Negro. Tímida, insegura, tratada como criança e extremamente reprimida pela mãe (a materialização do superego) e por si própria, como observa o diretor do ballet, Vincent Cassel (esse um personagem marcado pelo narcisismo), Nina, em conflito com sua dupla personalidade, o principal tema do filme, é perfeita para o papel de Cisne Branco, como se confirma nos ensaios, mas não consegue se soltar para a performance do Cisne Negro (representação do id).

Mila Kunis, a colega bailarina Lilly, é o alter ego de Nina. Lilly é a garota descolada, transgressora, livre das amarras, a menina que chegou de San Francisco. Não tem precisão mas é espontânea quando dança. Sua presença em cena é irresistível. Representa o próprio Cisne Negro. A faceta dark, ousada, sedutora que Nina reluta em aceitar, mas ao mesmo tempo lhe provoca atração e desejo. Não por acaso as duas personagens protagonizam uma das melhores cenas do filme... 

O uso de espelhos é presença constante no treinamento dia a dia do ballet. O diretor utiliza esse elemento em conjunto com várias superfícies reflexivas ilustrando o tema da dupla personalidade de Nina, ao mesmo tempo em que incorpora artifícios de filmes de terror, mas sempre de uma maneira criativa, imprimindo tensão e interesse à trama sempre sombria. Inclusive, noutra cena importante entre Nina e Lilly, um estilhaço de espelho chega a ser usado como arma.

A interpretação sensacional de Natalie Portman, dançando e atuando, digna do Oscar que recebeu, traz profundidade ao doloroso processo de transmutação da personagem em Cisne Negro. Autoflagelação, como se arrancasse a pele antiga para substituir por uma nova, e fantasias soturnas fazem parte do transcurso. Nina sofre mas luta contra a culpa imposta pela dualidade da repressão materna e a aceitação dos próprios instintos. Seu processo de transcendência, sua busca desesperada pela perfeição, esse ideal efêmero ao qual se agarra para resolver seu conflito, só encontrará realização num ato final radical. Apenas a morte (ou quase) poderia capturá-la? Encontrará assim a liberdade? Ou uma vida represada se apaga para dar lugar a uma nova? Intenso e angustiante, plasticamente irretocável, Cisne Negro é um filme para ver e rever sempre com interesse. Um interesse instigante, vigoroso, obscuro e repleto de simbolismos.

Em Mãe! a proposta de Darren Aronofsky é mais radical. Assisti ao filme numa ensolarada Lisboa do mês de setembro, de céu sempre azul, um contraste brutal com o tema sombrio e desesperador desse conto fantástico sobre a alma feminina em meio ao caos da existência em que vivemos.

Se em Cisne Negro a garota é sufocada pela mãe e por sua própria personalidade, em Mãe! o mundo de Jennifer Lawrence, o mundo feminino, a casa, o marido, o filho que nascerá depois, é constantemente ameaçado por intromissões exteriores. E o marido não lhe dá a mínima. Mãe! também pode ser interpretado como uma fábula sobre devastação ambiental, onde a figura materna representa a natureza, a casa seria o planeta e os intrusos, a civilização destrutiva. Ou ainda como alegoria bíblica.

Motivado pela polêmica criada em torno do tom extremamente perturbador do filme, Martin Scorsese saiu em defesa de Mother!, através de um artigo no Hollywood Reporter: "É um filme que precisa ser explicado? E a experiência de assistir a Mãe!? Foi tão tátil, lindamente encenado - a câmera subjetiva e os ângulos reversos, sempre em movimento... o design de som, que vem ao espectador pelos cantos e o leva cada vez mais para as profundezas deste pesadelo... o desenrolar da história, que gradualmente se torna mais e mais perturbador conforme o filme avança. O terror, a comédia sombria, os elementos bíblicos, a fábula cautelar - eles estão todos lá, mas eles são elementos da experiência total, que engole os personagens e os espectadores junto deles. Somente um verdadeiro e apaixonado cineasta poderia ter feito esse longa.”

Jennifer Lawrence e Javier Bardem vivem num casarão retirado em constante reforma. Reforma que Jennifer pegou como tarefa para si, o que lhe proporciona grande satisfação. Afinal, é a casa do marido que ela está reconstruindo como prova indiscutível do seu amor. Bardem, o marido, é um escritor que não consegue escrever. Os primeiros intrusos que se insinuam no lar da jovem protagonista são o casal Ed Harris e Michelle Pfeiffer. O diretor não identifica seus personagens principais com nomes próprios, conferindo um caráter universal a sua narrativa.

Ed Harris aparece como um médico que precisa de ajuda e é recebido por Javier Bardem. Descobre-se depois que na verdade ele é um fã do escritor. É o suficiente para Bardem dedicar-lhe toda atenção, deixando de lado a esposa para quem já havíamos percebido sua indiferença. Convida Harris para pernoitar na casa, mesmo com o sentimento de desconforto que a jovem companheira externa. É o início de um processo de violação ao mundo de Jennifer Lawrence. Depois aparece Michelle Pfeiffer como esposa do convidado. Espaçosa, intrometida, ela prenuncia em quão preocupante a situação poderá se transformar. Se Harris rouba a atenção do marido, Pfeiffer adentra a privacidade de Jennifer com perguntas invasivas e atitudes sem constrangimento. Começamos a nos sentir incomodados, tal qual a garota anfitriã.

Javier Bardem guarda em seus aposentos, num pedestal, uma espécie de joia do tamanho da palma de uma mão, dedicando-lhe todo cuidado. Explica para Ed Harris que certa vez perdera tudo num incêndio e aquele objeto era tudo que lhe restara (no final do filme entenderemos o significado). Não permite que ninguém o toque. Quando o casal de hóspedes o quebra acidentalmente, o panorama na casa começa a ficar fora de controle, agravado com a chegada de dois rapazes adultos, filhos de Harris e Pfeiffer. Os irmãos, referência a Caim e Abel, brigam entre si por causa do testamento do pai.

Michelle Pfeiffer comenta com Jennifer Lawrence que os filhos só trazem desgosto. Você os ama intensamente mas eles não retribuem. Assim como Jennifer e o marido, relação já insinuada pela hóspede (“Look at you! Se ele não está o tempo todo em cima de você, alguma coisa está errada”). Ela percebe que a bela jovem realmente ama o companheiro, mas não há reciprocidade. Parece ser a sina da condição feminina, amar mas não ser amada.

Uma morte acontece e mais intrusos invadem a casa, ameaçando a vida íntima de Jennifer, seu lar e as reformas às quais se dedicou. A desordem se instaura sem pedir licença.

Então, após o incidente do velório, sobrevém um período de paz aparente. Voltam a ficar a sós em seu casarão. Jennifer e Bardem se desentendem (“Você não é capaz nem de me comer!”, ela grita) e em seguida reconciliam-se numa cena de sexo carregada de raiva e desejo represado. Passa-se um tempo e a jovem anuncia que está grávida. Uma vida havia se esvaído, mas outra está por nascer. Este milagre da vida, a geração de um novo ser, inspira o escritor a superar sua impotência e voltar a escrever. Bardem transforma-se, está exultante e cheio de energia.

Seu novo livro é um sucesso. Como consequência, a paz do lar está novamente ameaçada. Primeiro a imprensa, depois multidões de admiradores. Depois, ainda, hordas de fanáticos, todos estimulados pelo conteúdo do livro, o (re)nascimento da vida (como se fosse uma bíblia). Sempre os outros merecem mais atenção de Bardem. A esposa é sempre preterida. Seu trabalho, amigos, fãs, estranhos, narcisismo estão sempre em primeiro lugar.

A situação torna-se intolerável. Ela, grávida, sua casa se demolindo, o caos tomando conta do seu mundo. A angústia que sentia desde o começo do filme, agora é puro desespero. E é assim também que nos sentimos desde o início, incomodados, perturbados, e da metade em diante do filme, desesperados. E Darren Aronofsky não alivia. Apesar de alguns instantes de humor negro, sentimos o mesmo pavor que Jennifer Lawrence. Um pavor que cresce à medida que se aproxima o momento de ela dar à luz. Já não se reconhece mais o interior da casa das reformas e mistérios, transformou-se num campo de batalha. Estamos num pesadelo sem fim, nós e Jennifer.

Nesse cenário de caos, o caos que é a síntese da própria natureza da civilização, só se encontra um breve momento de paz quando a criança nasce. Um novo ser, um ser amparado pelo milagre da vida, que, como um predestinado, vítima inocente da ilusão, poderá conferir sentido a um mundo repleto de desordem e desespero. Poderá redimir aquele mundo que o gerou.

No entanto, a trégua dura pouco. Referências bíblicas são evocadas quando a criança é arrancada da guarda de sua mãe. Agora, a mulher, a mãe, se dá conta que o mundo que ela cultiva nunca terá paz, nunca será verdadeiramente seu, como não é o filho que nasceu, sacrificado pela fantasia da redenção. O caos que ordena a realidade, o mundo exterior (seu marido aliando-se a ele) está sempre invadindo seus recantos, sempre se impondo com violência, opressão e fanatismo. Sua casa, seu santuário, sangra como ela. E então, aquela criatura que era dócil, assustada, submissa reage com uma fúria que literalmente não deixará pedra sobre pedra. A fúria de quem foi impotente para defender sua cria. A fúria de quem se rebela contra os algozes com o peso das dores acumuladas em seu ventre e âmago. Para depois tudo continuar como sempre foi.

No clímax do filme, Jennifer Lawrence (também como voz do próprio sofrimento humano) confronta a alma feminina e a alma masculina, contestando Javier Bardem como homem e como o ser onipotente revelado ao final:

Você nunca me amou! Você ama o amor que dedico a você!













domingo, 17 de setembro de 2017

A CHEGADA

(“Apesar de conhecer a jornada e aonde ela leva eu a acolho. E saúdo cada momento dela.”)




“Esse talvez tenha aberto os olhos para o ideal contrário: para o ideal do homem mais pleno de alegria, mais vivo e mais afirmador do mundo, que não somente aprendeu a contentar-se e suportar aquilo que foi e que é, mas que o quer novamente tal como foi e é, por toda a eternidade.”

Friedrich Nietzsche (1844 – 1900) é um dos filósofos de maior influência no pensamento ocidental e contemporâneo, alcançando até mesmo galáxias longínquas, onde sua Teoria do Eterno Retorno foi absorvida pelos heptapods, que precisam ensiná-la a Amy Adams, com o objetivo de sua civilização, no futuro, ser salva pela humanidade, ao mesmo tempo em que necessitam se defender do individualismo e belicismo humanos. Para repassar os ensinamentos e sua compreensão do tempo não linear precisam se valer dos fundamentos da linguística.

Esse é o argumento espetacular de A CHEGADA (Arrival), do diretor canadense Denis Villeneuve, filme de 2016 premiado como Melhor Filme de Ficção Científica / Terror e Melhor Roteiro Adaptado pelo Critics' Choice Award; Oscar de Melhor Edição de Som; Prêmio Bafta de Melhor Som; Melhor Roteiro Adaptado pelo Writers Guild of America e Melhor Filme Estrangeiro pelo Grande Prêmio do Cinema Brasileiro.

Ficção científica e filosofia, associação obrigatória em todo grande filme de ficção, patamar já alcançado por essa produção, um dos melhores filmes do gênero já realizados. É obrigatório destacar também o trabalho sensacional de edição de som, que dá vida aos carismáticos extraterrestres e conduz o mistério do filme com um fascínio redobrado, valorizando o argumento e a qualidade desse novo clássico.

Naves alienígenas aterrissaram em doze diferentes países ao redor do mundo. Amy Adams, como a Dra. Louise Banks, autoridade mundial em linguística, é convocada pelo governo americano para decifrar a linguagem dos extraterrestres que pousaram em seu país, chamados pelos terráqueos de heptapods, por possuírem sete pés.

Como os heptapods poderiam transmitir seus conhecimentos para Amy Adams? Conforme fundamentos básicos da linguística, para aprendermos uma língua estrangeira devemos pensar como nativos de tal língua. Devemos imergir em sua cultura. Para aprender japonês, precisamos pensar como japoneses (por isso japonês é tão difícil!). A Dra. Louise Banks explica melhor a Ian Donnelly (Jeremy Renner), cientista também convocado para a missão:

 “Sim, a Hipótese de Sapir-Whorf. A teoria de que a língua que você fala determina como você pensa.”
“Ela afeta como você enxerga tudo”, complementa Ian.

Pois bem, no processo de aquisição da linguagem Amy Adams absorve o pensamento dos heptapods, com sua compreensão do tempo não linear (os próprios sinais gráficos da linguagem alienígena, sua ortografia não linear, assemelham-se ao símbolo circular da mandala, sem início nem fim, assim como o nome da filha de Amy, Hannah, um palíndromo, que se lê igual de trás para frente). Essa compreensão é a grande dádiva dos visitantes, seu presente, além da lição sobre trabalho em solidariedade que pretendem passar aos humanos, forçando-os a superar a barreira dos interesses antagônicos e a delimitação das fronteiras excludentes.

Se lhe fizessem a seguinte pergunta: você aceitaria viver novamente sua vida tal qual ela foi, sem nada mudar, por toda a eternidade? Conforme Nietzsche e a Teoria do Eterno Retorno, a resposta sim é uma afirmação da existência, o ideal do homem mais pleno de alegria, mais vivo, aquele que valoriza a vida com todas as alegrias e tristezas inerentes ao próprio percurso.

Confrontada com a noção do tempo não linear, onde passado, presente e futuro são caminhos simultâneos cruzando os labirintos da existência, a resposta de Amy Adams ao enigma nietzscheano é afirmativa:

Apesar de conhecer a jornada e aonde ela leva eu a acolho. E saúdo cada momento dela.

Sua coragem e o aprendizado a que se submeteu serão decisivos para enfrentar a intolerância humana e defender os heptapods e o plano que traçaram como única esperança para duas raças cuja possibilidade de entendimento passa por uma nova compreensão, por parte dos humanos, acerca do tempo e da superação dos limites que nos aprisionam.

O processo de aprendizagem de Amy Adams, catalisadora desse contexto, é difícil e penoso. A interação com os alienígenas e o seu próprio drama pessoal, que aparece como instantâneos de uma vida desvendada, convergem para o ponto onde revelação, sofrimento e realização não são caminhos óbvios para um novo estágio:

A memória é algo estranho. Ela não funciona como eu imaginava. Estamos tão presos ao tempo. À sua ordem. Mas agora não tenho tanta certeza se acredito em começos e fins.

Acompanhamos as reflexões e desafios da protagonista ao longo de um filme enigmático e repleto de belas cenas. Numa das últimas Amy Adams questiona Jeremy Renner:

“Ian, se você pudesse ver toda a sua vida do início ao fim mudaria coisas?”

E você? Lembre-se de Friedrich Nietzsche antes de responder.


                                                                                                                             

sábado, 25 de março de 2017

BRASÍLIA

(“Cinquenta anos em cinco”)




 


A história da criação de BRASÍLIA é uma história contada por pioneiros. O documentário OSCAR NIEMEYER – A VIDA É UM SOPRO, de 2007, dirigido por Fabiano Maciel, e a minissérie JK, de Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira, exibida pela Globo em 2006, são excelentes registros desse período.

Em ambos os filmes, os momentos em que a tabelinha Oscar Niemeyer e Juscelino Kubitschek aparece em cena, lembrada pelo arquiteto no documentário ou dramatizada na minissérie, ao lado da concepção e nascimento da nova capital federal, são pontos altos das narrativas.

Como complemento dessas indicações, vou me atrever a apresentar um relato familiar.


Meu pai já falecido, Manoel Laranja, o Manolo, como era conhecido 
pelos familiares e amigos, nasceu em São Borja, em 1918. Viveu sua infância e juventude na fazenda de meus avós. Até os 16 anos era praticamente analfabeto. Decidiu que deveria estudar. Completou o supletivo da época, formou-se em Engenharia Civil no Rio de Janeiro e participou da gestão de Leonel Brizola na Prefeitura de Porto Alegre, na década de 1950. Inclusive tinha um projeto para incentivar o consumo de peixe na capital gaúcha, o que não era comum na época, através de um intercâmbio com a cidade de Rio Grande, proposta que acabou sendo boicotada pelos grandes frigoríficos de carne.

Tinha, também, muitas histórias do tempo de estudante e profissional no Rio de Janeiro. Dele e do irmão que também morava no Rio, Francisco Laranja, médico e diretor do Instituto de Manguinhos, reconhecido internacionalmente como um grande cientista brasileiro pelas pesquisas sobre a Doença de Chagas. Os Laranjas conheciam o então Presidente da época, Getúlio Vargas, e o filho, Maneco, conterrâneos de São Borja. Uma das histórias contadas por meu pai era sobre o amigo chinês que fazia parte da turma frequentadora das festas oficiais de um Rio então glamourizado, e depois descobriram que era um espião a serviço de seu país.

Posteriormente, Manoel Laranja veio a ser um dos engenheiros responsáveis pela construção de Brasília. Era um homem simples. Adorava a vida rural. Não tinha inimigos. A par de sua determinação, lucidez e espírito prático, era generoso e conquistava a simpatia de quem se aproximava dele. Ensinou aos filhos, entre outras coisas, que não se economizava com saúde e educação (o que soa como exemplo para nosso próprio país, açoitado, no presente, por um período de austeridade sem sentido nos investimentos públicos). Não se gabava de sua participação nesta página da história do Brasil, o nascimento de um ícone de Arquitetura e Urbanismo, a capital federal símbolo da obra do maior arquiteto brasileiro, Oscar Niemeyer, e do grande urbanista Lúcio Costa, e marco do processo de modernização e integração territorial do país.

Naqueles tempos, mesmo com incentivos do governo, havia uma resistência por parte das pessoas em migrar para Brasília. Apenas os pioneiros tinham coragem (hoje a população é estimada em quase três milhões de habitantes).

Apesar de eu ser muito pequeno na época (entre dois e cinco anos), guardo algumas lembranças da minha infância nos primeiros anos de Brasília. A terra vermelha, O Vigilante Rodoviário na TV, os candangos, os carros de corrida coloridos nas ruas da Esplanada, nossa casa na Novacap (Companhia Urbanizadora da Nova Capital), depois a casa na Avenida W3.

A W3, aliás, tinha uma proposta arquitetônica muito interessante e inovadora para a época: as garagens das casas de dois pisos, alinhadas lado a lado, davam para a via de carros, a rua propriamente dita; no lado oposto as fachadas se abriam para um jardim de grama muito verde, cortado por uma via de pedestres que se estendia ao longo das quadras, as chamadas superquadras. Meus olhos de criança ficavam maravilhados, achava tudo muito bonito. Infelizmente, hoje em dia, a W3 está completamente descaracterizada.

Manoel Laranja era o engenheiro responsável por implantar o sistema de micro-ondas na cidade que se erguia. Trabalhava sob as ordens diretas do Pres. Juscelino Kubitschek, como um dos seus homens de confiança. As micro-ondas são empregadas no campo das telecomunicações para carregar informações de sistemas de telefonia e televisão. Esse sistema iria garantir as ligações telefônicas de Brasília com o resto do país e o mundo. Era primordial que estivesse pronto antes da data de inauguração da cidade.

Uma instrução muito clara foi passada por Juscelino para meu pai: “Laranja, precisamos terminar as micro-ondas antes da inauguração de Brasília, custe o que custar! Qualquer coisa que você precise pode falar direto comigo! Você vai ter um canal só para isso. E pode usar nossos helicópteros sempre que precisar!” Como tudo que se precisava fazer na empreitada da capital emergente, a missão do engenheiro era quase impossível. Tudo tinha que ser feito em tempo recorde. Cinquenta anos em cinco era o lema de JK.

A mídia da época, que dependia da tecnologia a ser implantada, não acreditava. Questionavam o Presidente nas coletivas, entre outros assuntos: “Presidente, o sistema de micro-ondas vai ficar pronto a tempo?” Juscelino respondia: “Sim, ficará pronto na data prevista!” A tensão era crescente. Finalmente, depois de muitos percalços, em 17 de abril de 1960, as ligações telefônicas foram completadas! O sistema de micro-ondas estava estabelecido! Quatro dias depois, em 21 de abril, Brasília foi inaugurada! Minha mãe, Eunice, pôde preparar-se, aliviada, para o grande baile de gala na inauguração da nova capital federal.

Essa é uma das muitas histórias daquele tempo. Hoje, meus pais, assim como outros peregrinos, descansam protegidos por uma Luz que carrega consigo todas as respostas aos mistérios do Universo.

Dessa dimensão onde estão, apesar das críticas suscitadas pelo conceito da metrópole, estes pioneiros, Eng. Manoel Laranja e demais protagonistas, podem se orgulhar de ter participado do evento que viram tomar forma na poeira vermelha do Planalto Central: a criação de Brasília, obra-prima de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa e Patrimônio da Humanidade.