quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

MURDER

(“Incrível como é fácil reconhecer duas pessoas apaixonadas.”)



 


Notamos na produção de Hollywood, há alguns anos, um excesso de refilmagens e sequências. Mas conseguimos nos lembrar de uma refilmagem tão boa quanto o original? Ou ainda, de qualquer uma que seja considerada um bom filme? Precisamos puxar pela memória. Mas uma das exceções certamente é digna de menção. UM CRIME PERFEITO (A Perfect Murder), de 1998, refilmagem de DISQUE M PARA MATAR (Dial M for Murder), de 1954, do mestre Alfred Hitchcock.

Ambos os filmes apresentam em seus créditos a peça na qual são baseados, Dial M for Murder, de Frederick Knott. No filme de Hitchcock, Knott é também o autor do roteiro. Hitchcock dizia que se você compra uma peça de sucesso não deve desenvolvê-la. Deve apenas filmá-la. Mas à maneira que ele faria, devemos acrescentar. Isso explica o formato da obra, uma peça teatral filmada, mas de maneira brilhante, com a câmera exatamente no lugar certo em cada momento da ação. Noventa por cento das tomadas foram no cenário de um apartamento, mas nem por isso é menos interessante ou com menos suspense. Pelo contrário. Embora esse filme não esteja entre os mais lembrados e valorizados de Hitchcock, como Psicose, Os Pássaros, Um Corpo que Cai, Janela Indiscreta, Festim Diabólico e Intriga Internacional, podemos dizer que Disque M Para Matar está no segundo bloco de grandes filmes do mestre, como Trama Diabólica, Frenesi, Rebecca, O Homem que Sabia Demais, Interlúdio, A Sombra de Uma Dúvida, O Homem Errado, entre outros.

Temos, em Disque M Para Matar e Um Crime Perfeito, um grande vilão, respectivamente Ray Milland e Michael Douglas; as belas esposas loiras em ótimas interpretações, frágeis e ao mesmo tempo feras quando acuadas, Grace Kelly e Gwyneth Paltrow; dois chefes de polícia, John Williams, ator inglês e um dos preferidos de Hitch, com maior participação na trama, e David Suchet; mais o amante e o assassino. No filme de Hitchcock o criminoso que sobrevive de golpes em  mulheres é Anthony Dawson e o namorado que completa o triângulo amoroso é Robert Cummings. Em Um Crime Perfeito, dirigido por Andrew Davis, Viggo Mortensen é uma combinação do amante e do assassino golpista. Tanto Ray Milland como Michael Douglas comentam em certo momento, acerca do casal infiel, com um ar de ameaça sutil e sarcasmo: "Incrível como é fácil reconhecer duas pessoas apaixonadas".   

Disque M Para Matar é um suspense ambientado em Londres, filmado com uma elegância própria do Reino Unido, com a classe dos principais atores comandando o espetáculo, principalmente Ray Milland e John Williams. Podemos destacar duas cenas, entre várias admiráveis: uma que entrou para a história do cinema; outra que ilustra a elegância do filme, ambas decisivas na estória.

A cena em que Grace Kelly está prestes a ser atacada, após Ray Milland discar “M for murder”, e depois debate-se por sua vida até encontrar a tesoura afiada, é antológica e de um suspense bem maior que a da refilmagem.

A outra cena destaca a classe do filme e o charme de uma época que já não existe, quando as pessoas convidavam os amigos para “tomar um drink lá em casa”. Ao final do filme, Ray Milland volta ao apartamento onde tudo acontece e consegue abrir a porta com a chave que estava escondida sob o tapete, na escada do prédio. Ao entrar, sua expressão de alívio, mas um tanto intrigada, é substituída pela surpresa ao encontrar, de um lado, Grace Kelly e o amante, e do outro, o inspetor de polícia atrás da escrivaninha. Dá meia volta e tenta fugir pela porta que entrou, mas um policial no corredor lhe barra a saída. Fica alguns segundos paralisado e se dá conta que não adianta mais, foi desmascarado, está tudo perdido. Recompõe-se e dirige-se ao inspetor: "Parabéns, inspetor", e coloca a chave, prova do crime, sobre a mesa. Pega a garrafa de scotch e, dirigindo-se ao bar, serve-se de uma dose de Red Label. Pergunta a Grace Kelly:
- Aceita, Margot?
- É, acho que um pouco me faria bem – responde ela com lágrimas discretas. 
- Mark?
- Pra mim também.
- Suponho que ainda esteja em horário de expediente, inspetor.
Este está ao telefone chamando os colegas policiais.
Assim termina o filme, com todos bebendo juntos.

Em Um Crime Perfeito, o diretor Andrew Davis optou por um outro conceito. A estória é desenvolvida como um policial noir, com uma bela fotografia em tons sépia. Um thriller clássico onde o suspense e a movimentação do roteiro nunca perdem o pique. Alguns o consideram melhor que o original, o que pode soar como uma heresia, afinal Disque M Para Matar é considerado uma obra-prima. O fato é que o filme de Andrew Davis, um dos melhores policiais da década de noventa, honra a versão de Hitchcock.

Todos os atores oferecem ótimas interpretações. Michael Douglas, carismático como sempre, principal figura do filme, faz um vilão calculista e maldoso, ao contrário de Ray Milland, também calculista mas um gentleman. Gwyneth Paltrow é a mocinha ingênua, que nessa versão, ao contrário de Grace Kelly, não tem um mocinho para defendê-la e precisa se virar sozinha. Viggo Mortensen é o amante golpista, que gosta realmente de Gwyneth, mas acaba cedendo à sua natureza criminosa. Os desdobramentos desse triângulo amoroso (envolvendo crimes) é cinema de qualidade.

Ambos os filmes nos proporcionam uma excelente sessão dupla sobre o tema assassinato. Sarita Choudhury, conversando com Gwyneth, nos explica essa natureza:
- Traição é a segunda razão mais antiga para se matar alguém.
- É mesmo? E qual seria a primeira?
- Money, honey.



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