quinta-feira, 21 de abril de 2016

INSTINTO SELVAGEM

(“Você sabe tudo sobre impulso homicida. Não sabe, shooter?”)




Considero INSTINTO SELVAGEM (Basic Instinct), de 1992, o melhor filme noir de todos os tempos. Minha esposa, fã do filme, compartilha da mesma opinião. Bom, se não é o melhor pelo menos podemos colocá-lo na galeria de  obras-primas deste gênero, desde O Falcão Maltês até Pacto de Sangue, Laura, Amar Foi Minha Ruína, Vertigo, Corpos Ardentes e tantos outros.

O termo “noir” surgiu na crítica francesa, numa alusão a uma coleção de livros de histórias criminais, impressos em capas pretas, para denominar um estilo de filmes policiais, em preto-e-branco, produzidos por Hollywood nos anos quarenta. O gênero estendeu-se pelas décadas seguintes e quase sempre seus principais elementos são a fotografia em contraste claro-escuro, gerando sombras que representam a própria psique dos personagens, cenários noturnos, submundo, desesperança, valores morais obscuros, mulheres fatais, um investigador cínico e desiludido que sempre se apaixona pela mulher errada, diálogos ácidos e de duplo sentido, crimes como assassinato e roubo, história intrincada ou mesmo incompreensível.

O diretor holandês Paul Verhoeven, autor de sucessos como Robocop, Conquista Sangrenta, O Vingador do Futuro, A Espiã, etc., manipulou esses elementos criando um filme irresistível, cheio de clima, mistério e sedução, além de transformar Sharon Stone em estrela e adicionar mais um sucesso à carreira de Michael Douglas.

Instinto Selvagem é inspirado livremente no filme espanhol O Matador, de Pedro Almodóvar.

Sharon Stone é Catherine Tramell, uma loira hitchcoquiana no auge de sua beleza, a femme fatale protagonista da cena mais ousada dos filmes noir. Uma cruzada de pernas espetacular que traumatizou os policiais presentes no interrogatório e deve ter derrubado vários saquinhos de pipoca nas sessões de cinema.

Michael Douglas é o detetive Nick Curran, aquele cara que só entra em roubada, um loser do tipo que sempre simpatizamos neste gênero de filme.

É pela relação ambígua entre ambos, antagonismo e desejo irrefreável, que a trama se desenvolve em seus vários desenlaces. Parece que o tempo todo tentamos dizer para Michael “Cai fora. Você vai se fuder”, mas como resistir à beleza de Sharon? Na verdade, queremos que ele continue atrás da gostosa. Assim também funcionava a cabeça de Nick Curran.

Na abertura do filme, ao som da elogiada trilha sonora, quatro nomes de peso responsáveis pela produção aparecem entre os créditos: Jerry Goldsmith, compositor da trilha sonora; Jan de Bont, responsável pela bela fotografia, que viria a ser diretor de sucessos como Twister e Velocidade Máxima; Joe Eszterhas, autor do roteiro e roteirista de Flashdance e Jade; e o próprio diretor Paul Verhoeven.

Cabe destacar a presença no elenco da veterana Dorothy Malone, atriz de clássicos inesquecíveis como À Beira do Abismo (outro grande filme noir), Palavras ao Vento e O Último Pôr do Sol. Ela faz o papel de Hazel Dobkins, uma das amigas de Catherine Tramell. Também no cast a bela Jeanne Tripplehorn, de Waterworld, como a Dr. Beth Garner.

Após a apresentação dos créditos, uma cena de sexo ardente é seguida pela violência de um assassinato. A protagonista é uma loira hot, mas não conseguimos enxergar seu rosto. Catherine Tramell, namorada do roqueiro assassinado, passa a ser a principal suspeita.

Quando o policial Nick Curran e seu parceiro Gus encontram-se pela primeira vez com Catherine, no deck de sua casa de praia, com uma vista paradisíaca para o mar, sabemos que a tela vai pegar fogo, sentimos um clima tal qual notas de jazz, perigosas e sedutoras, preenchendo toda a atmosfera do filme. Sabemos que ninguém será páreo para aquela mulher, nem mesmo o detector de mentiras: “Não hesita, sem variação na pressão ou na pulsação. Ou ela está dizendo a verdade ou nunca vi alguém  igual”, relata o técnico do polígrafo para seus colegas, após o interrogatório da beldade.

Catherine Tramell é psicóloga e escritora. Escreve livros de ficção e faz sua pesquisa entre pessoas cujo passado revelou um instinto assassino e que passam a fazer parte de seus relacionamentos pessoais. No seu entender, Nick Curran se enquadra nesse perfil. Afinal, ele havia sofrido um processo dentro da própria polícia, quando, num tiroteio com criminosos, matara acidentalmente dois turistas. Catherine parece saber tudo sobre a vida de Nick. Quando o policial reaparece em sua casa, inclusive lhe revela que se inspira nele para o personagem de seu próximo livro.

- Então, o que quer perguntar para mim? – prontifica-se Nick com a pesquisa da escritora, enquanto esta prepara um drink.
- O que se sente ao matar alguém? – pergunta Catherine.
- Me conte você – tenta se recompor o policial.
- Eu não sei, mas você sabe.
- Foi um acidente. Eles entraram na linha de tiro.

No desenrolar do jogo que a anfitriã conduz, o detetive lhe pergunta sobre Hazel Dobkins:
- Hazel é minha amiga – responde Catherine.
- Sua amiga acabou com toda a família.
- Sim, ela me ajudou a entender o impulso homicida.
- Pensei que aprendesse isso na escola.
- Só na teoria. Mas você sabe tudo sobre impulso homicida. Não sabe, shooter? Não em teoria, mas na prática. O que aconteceu? Foi tragado por isso? Gostou muito?
- Não sei do que está falando.

Neste momento, o rosto de Catherine está quase encostado no de Nick e sua voz é um convite ao policial, completamente sem ação, a se deixar perder nas próprias confidências:
- Fale-me da coca, Nick. No dia em que acertou os dois turistas. Quanta coca tinha cheirado? Vamos, você pode me contar.
- Não cheirei.
- Sim, cheirou sim. Eles nunca checaram isso, não foi? Mas a Assuntos Internos sabia. Sua esposa também sabia, não é mesmo? Ela sabia o que estava acontecendo. Nicky chegou perto demais do fogo. Nicky gostou daquilo. Foi por isso que ela se matou.

O policial empurra a loira, que continua lhe fitando com um sorriso irônico no canto dos belos lábios. A amiga Roxy chega, outra loira sensual, e enquanto Catherine a envolve em seus braços, o detetive dirige-se irritado para a saída. “Você vai dar um personagem formidável, Nick”, diverte-se a escritora com a reação do cara.

Ao longo de toda a trama policial, desde o início, a teia que Catherine tece sobre Nick e da qual ele não consegue escapar é o âmago do filme. “Ela sabe tudo a meu respeito. Ela está atrás de mim, Gus”, revela a seu parceiro sem conseguir uma explicação. A sensação de perigo parece impelir Nick para as cenas de sexo com a bela suspeita. Qual seria a verdadeira intenção de Catherine Tramell por trás daquela aura de desejo e ameaça? Até a última cena, ou mesmo depois, esta pergunta parece nunca ter resposta.

segunda-feira, 28 de março de 2016

THE MOLLY MAGUIRES

(“Decência não é para os pobres. Você tem de pagar por ela.”)




Martin Ritt (1914 – 1990) foi um grande diretor do cinema americano, com uma produção significativa dos anos cinquenta aos oitenta. Dirigiu grandes filmes como Testa de Ferro por Acaso, Norma Rae, Hombre, O Indomado, O Mercador de Almas, O Som e a Fúria, O Espião Que Veio do Frio, entre outros. Transitou por vários gêneros, mas sua vertente preferida eram os filmes de cunho social, onde pessoas comuns lutavam contra o Sistema.

Um de seus melhores filmes, coerente com esta proposta e pouco conhecido no Brasil, é VER-TE-EI NO INFERNO (The Molly Maguires), de 1970, sobre a luta dos mineiros de carvão de origem irlandesa, na Pennsylvania, contra a exploração a que eram submetidos. Inspirado em fatos reais a partir de 1876, narra a história em que o detetive infiltrado James McParlan levou à condenação os líderes do grupo terrorista Molly Maguires, que lutavam, com métodos radicais, por melhores condições para a comunidade de mineiros.

Molly Maguires foi um grupo ativista que teve sua origem na Irlanda, no século 18, defendendo os direitos dos pequenos produtores rurais contra os latifundiários, e voltou a ser representado nos Estados Unidos, na Pennsylvania, entre os mineiros de origem irlandesa. O porquê do nome do grupo é um mistério. Ao que parece originou-se de uma citação a uma personagem real da história irlandesa, Mistress Molly Maguire, símbolo da luta contra a injustiça. “Take that from a son of Molly Maguire!” passou a ser ouvido antes de algum ataque contra alguma autoridade representante de um poder opressor. Essa tradição encontrou eco do outro lado do oceano, no século 19, entre os mineiros imigrantes da Irlanda que viviam em condições precárias, expostos a doenças e perigos nas minas da Pennsylvania, explorados de forma brutal pelos magnatas das jazidas de carvão. Os Molly Maguires, organizados como sociedade secreta, passaram a combater, com métodos terroristas, o poder que cobria estes trabalhadores com um manto negro de sofrimento. Os principais eventos referidos no filme entraram para a história do trabalhismo americano.

Nesta fita de Martin Ritt temos a presença de dois monstros sagrados do cinema, Sean Connery, como o líder dos Mollies, Jack Kehoe, e Richard Harris, como o detetive James McParlan, também de origem irlandesa e que se passava por James McKenna. E mais a excelente trilha sonora, melancólica e evocativa da origem dos mineiros, do grande Henry Mancini.  

O filme abre com uma esplêndida sequência de imagens, sem diálogos, acompanhada pela bela melodia do tema principal, mostrando a rotina do trabalho nas minas até a operação terrorista que culmina com a explosão que incendeia a tela e apresenta os créditos da produção.

Na cena seguinte, o investigador McParlan (Richard Harris) está chegando pela estação ferroviária ao vilarejo dos mineiros, no Condado de Schuylkill. Sua missão é conseguir a confiança destes e infiltrar-se entre os Molly Maguires. Envolve-se numa briga de bar, uma espécie de teste dos mineiros desconfiados, tudo sob o olhar observador do chefe do grupo secreto, Jack Kehoe (Sean Connery). McParlan se sai bem no teste, e após uma noite na cadeia, onde é apresentado ao seu contato, o Chefe de Polícia local, retorna ao bar pela manhã para reaver sua mala e procurar por uma acomodação.

É informado sobre um quarto para alugar e apresenta-se, como James McKenna, na residência de Miss Mary Raines (Samantha Eggar). Esta mora com o pai idoso, um mineiro aposentado e doente. “Só sobrou uma. Enterrei minha mulher e dois filhos. Só sobrou ela”, comenta com McKenna sobre a filha, à mesa de jantar.

McKenna consegue emprego na mina e logo é apresentado à dura realidade dos colegas. Ao receber seu primeiro pagamento, o funcionário lhe apresenta um relatório detalhado sobre sua atividade e custos respectivos. US$ 9,24 pelo carvão extraído menos US$ 9,00 de descontos pelos equipamentos. Salário total da semana: US$ 0,24. A expressão do irlandês realmente não é de satisfação.

Aos poucos McKenna conquista a confiança de Jack Kehoe e seu grupo. É convidado a integrar a Ancient Order of Hibernians, uma organização legal dos mineiros irlandeses, e depois, finalmente, entra para os Molly Maguires, uma sociedade secreta. “Morrer enforcado ou de tanto tossir nas minas, qual é a diferença?”, argumenta Dougherty (Anthony Zerbe), um dos companheiros. 

A missão do detetive infiltrado é exterminar os dissidentes, levá-los à forca com provas. Em sua primeira ação com o grupo deixa claro que o fim vai justificar os meios em seu intento, manipulando a situação (ou será que uma revolta contra os patrões das minas estava se manifestando?), mas ao mesmo tempo salva Frazier (Art Lund), um colega, de ser preso pela polícia.

McKenna também se sente atraído pela sua jovem senhoria, a bela Mary Raines.

O investigador desenvolve um sentimento ambíguo em relação aos mineiros: por um lado solidariza-se com sua causa e até simpatiza com os integrantes dos Mollies; por outro continua fazendo seu trabalho, pelo qual será bem pago e impulsionará sua carreira. Em certo momento, o oficial de polícia lhe questiona: “Não se esqueça de que lado você está”. McKenna prontamente responde: “Eu sei decidir qual o melhor lado”. Esse sentimento, que transparece ao longo do filme, também é bem nítido na cena do picnic com Mary Raines, quando questiona os valores da moça:

- Você quer decência. E confiança, honra e segurança, tudo do lado da lei. Acha que os teria de graça? Você viu por si própria. Decência não é para os pobres. Você tem de pagar por ela, tem que comprá-la. E dá para comprar a lei também, como se compra uma fatia de pão.
- Ainda há o certo e errado - responde Mary.
- Há o que você quer e o quanto tem de pagar. 

Jack Kehoe, o chefe dos Mollies, tinha um entendimento bem claro sobre seu contexto social. Quando Raines, o pai de Mary, agoniza em seu leito, o padre da comunidade (Philip Bourneuf), que está lhe assistindo, tem oportunidade para uma conversa privada com Jack. Sabe de suas atividades ilegais e tenta demovê-lo do caminho da violência. O mineiro responde, pesaroso por mais uma morte e o semblante cansado de lutar mas sem ter outra alternativa:

- Tentei do seu modo. Não me ajudou em nada.
- Há perdão no fim do caminho – retruca o pároco.
- Pecado no começo e perdão no fim, desde que abaixemos a cabeça no meio. Não posso aceitar isso, padre.

O padre ainda lhe revela que existe um informante entre eles. Conseguiu essa informação com o arcebispo, mas não sabe quem é. A expressão de Kehoe é mais de decepção que surpresa.

No velório de Raines, Jack não resiste. Embora dissesse que não bebia, nesta noite não se reprime e certa hora aproxima-se do corpo do velho amigo:
- Tomaram todo o resto. Nem mesmo lhe restou um paletó para ser enterrado!
- Não é certo enterrar alguém sem roupa adequada – completa seu companheiro militante Frank Andrew (Anthony Costello).
- Não, não é. E ele terá um paletó. Devem muito a ele – Jack assume um ar decidido.

O que vem na sequência é uma das melhores cenas do filme. Jack e Frank, irritados, saem à rua e dirigem-se ao armazém do próprio dono das minas. Acompanhados pela calada da noite, mais atrás vêm McKenna e o grupo de populares do velório. Jack arromba a porta do estabelecimento e Frank pega um paletó para Raines. Kehoe está saindo mas, para um pouco, olha para as pessoas, e...what a hell!, pega o resto das roupas e, do parapeito da entrada da loja, joga para o povo abaixo que observa da rua. A seguir faz o mesmo com as roupas femininas. A um canto do armazém, McKenna observa e empunha uma pá, parece que o sangue lhe sobe à cabeça, uma revolta sufocada força passagem e dá lugar a uma ira que se solta enquanto quebra os objetos das prateleiras e depois tudo que encontra pela frente. Jack, que se preparava para sair com uma pequena pilhagem, interrompe o que fazia, seu rosto franze, e acompanha McKenna em sua fúria. Em seguida despeja querosene pela loja e ambos ateiam fogo em utensílios de madeira. Labaredas iluminam os dois homens que se abraçam, riem e exultam: “Vamos mostrar a eles que ainda estamos vivos!”

A esta altura, Jack já sabia que havia um informante entre eles. Obviamente só poderia ser McKenna – seria o único suspeito. No entanto continuou fazendo o que achava que deveria ser feito. Como se não houvesse outra opção. De certa forma parecia que tudo seguia um curso natural, inevitável. Na última operação ele e Frank são presos vítimas de uma emboscada. Olha para onde McKenna deveria estar, vigiando, e ele não está mais lá. Neste momento tem certeza de quem era o delator. Quando o detetive é convocado para depor no tribunal contra eles e revela seu nome verdadeiro como James McParlan, Jack Kehoe não demonstra surpresa, ao contrário de seu colega Dougherty, que tem que ser contido pelos policiais.

McParlan visita Kehoe na prisão, onde espera a data do enforcamento. O investigador comenta que não sabia como seria recebido, mas Jack está calmo, senta em sua cama e o convida a acomodar-se num banquinho no canto da cela. Depois de perguntar ao condenado se tem tudo que precisa, McParlan questiona:

- Ainda crê que pode resolver algo com pólvora?
- É o que veio perguntar? – indaga Jack.
- Só curiosidade. Quero dizer, acha mesmo que poderia ter vencido? Mas então, por quê?
- Você sabe tanto quanto eu. Trabalhou lá. Você ficaria indiferente?
- Eu não ficaria. Teria ido embora.
- Onde acharia algo diferente? Há sempre pressão de baixo e de cima. Quem pressiona mais é o que conta.
- Eles sempre vencem.

Jack retruca explicando a própria essência da militância social. A conscientização paulatina, pedra por pedra, corações e mentes um a um. O idealismo superando a própria consciência da morte:
- Mas ganhamos um pouco. Não muito mas um pouco. Suficiente para pressionar os bastardos um pouco. E você nos ajudou. Você mesmo pressionou uma pequena parte.
- Fazia parte do trabalho.
- Voltando para ajudar Frazier. Fez porque quis.
- Não tenha tanta certeza. Você me respeitou mais.
- Você gostou de bater no policial.
- Sim, devo admitir...
- E por fogo no armazém. Não trabalhou só para eles.
- Foi um belo incêndio – sorri McParland.
- Foi um homem naquela hora.

Depois um pequeno silêncio se faz entre os dois homens. McParlan volta à sua indagação principal:
- Por que não parou, Jack? Tentei fazê-lo parar.
- Eles iriam nos pegar cedo ou tarde.
Jack ainda conta sobre um plano que tinha. Uma ação que seria espetacular.
- Você mostrou o que queria, Jack. Não se arrependeu. Usou a pólvora que tinha – McParlan não esconde sua simpatia.

Jack escolhe as palavras:
-Sim. Mas você não veio aqui conversar. Nem fazer perguntas ou dizer adeus.
- Então apenas deixemos claro por que eu vim.
- Veio para ser perdoado.
- Você não é um padre, Jack.
- Gostaria de se livrar do que fez.
- Não sou sentimental.
- Você não quer perdão. Pode conseguir isso de uma mulher. Punição é o que você quer. Acha que a punição vai libertá-lo. Talvez seja meu coração cristão. Nunca pude ver um homem carregando uma cruz.

Dito isto Jack salta no pescoço de McParlan e o pressiona contra a parede. Os guardas entram um pouco depois dominando o preso e libertando o ofegante investigador. Jack Kehoe, no chão, dirige-se a McParlan:
- Está livre agora? Eu o libertei para uma vida nova?
- Eu devo a você – responde o detetive ainda retomando o fôlego.
- Você nunca será livre – continua o mineiro. Nenhuma punição deste lado do inferno vai libertá-lo do que fez.
- See you in hell – despede-se McParlan.

Corajoso, ousado, envolvente e brilhantemente filmado, The Molly Maguires merece ser redescoberto. “Deste lado do inferno” nem sempre conseguimos assistir a um filme tão interessante e com tal qualidade.







sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

WHISKY E DESEJO

 (“É o que Gino Marzzone bebe. Scotch. Glenlivet.”)
























Existe um complemento perfeito para nossas sessões de home cinema: o whisky. A melhor bebida do mundo. Quem gosta sabe que não exagero.

Vivemos tempos em que a ditadura de dietas da moda nos priva de pequenos prazeres e até do convívio social. Pequenos prazeres como comer e beber bem. Acredito que com moderação, aliada a hábitos saudáveis e alimentação balanceada, não precisamos nos privar de nada. Podemos priorizar a satisfação e o prazer (com moderação, bem entendido) ao invés da obsessão neurótica pela saúde perfeita, que por sinal não existe.

Assim, me sinto à vontade para fazer a apologia desta bebida que podemos chamar de Néctar dos Deuses. O whisky, este líquido que aquece a garganta e preenche nosso paladar de evocações de tabernas, carvalho, malte e uma gama de notas sofisticadas e viris. Há momentos no nosso cotidiano em que o sabor deste bálsamo nos reapruma, reconforta, relaxa ou simplesmente valoriza alguma comemoração ou programa. Apreciar um bom whisky é um prazer indescritível!

Passei a me interessar por conhecer melhor esta nobre bebida. Encontrei um livro na Saraiva, certa vez: 100 WHISKIES DE SEMPRE. Folheava-o cada vez que ia lá mas não comprava. Esperava baixar o preço, o que nunca acontecia. Até que certa vez não o encontrei mais. Era o único exemplar! Perdi o livro!! Nem na internet encontrava! Esgotou-se!! Fiquei me enrolando, enrolando, e perdi o objeto do meu desejo! Mas não é que alguns meses depois, passeando em São Paulo, numa livraria dentro do Shopping JK, encontro o sonhado exemplar? O preço era bem salgado. Minha mulher teve que intervir ("Não deve estar esgotado! Este preço é muito caro!") e a contragosto não comprei, quando já estava a caminho do caixa. God!! Era minha chance!! Nunca mais! Mas a história não termina por aqui. Um mês depois, já em Porto Alegre, na Fnac...encontro o livro novamente! Por um quarto do valor em São Paulo. Não estou dizendo que as mulheres são mais espertas? Final feliz, hoje o sofrido exemplar enfeita minha sala de estar.

Existem outros bons livros sobre whiskies no mercado, alguns em inglês, mas este 100 Whiskies de Sempre traz matérias sobre as marcas mais conhecidas por nós, brasileiros. O original é espanhol, sendo esta versão em português lançada pela Editorial Estampa, de Lisboa.

Os whiskies dividem-se de maneira mais simples em: Single Malt (obtido através da cevada maltada e produzido por uma única destilaria); Single Grain ou whiskies de cereais (cevada mais a adição de algum outro tipo de cereal como milho, trigo ou centeio, uma destilaria); e o Blended (um ou mais Single Malts, com um ou mais Single Grains).

São basicamente os Blended que encontramos no nosso mercado importador. Meus favoritos são dois: THE FAMOUS GROUSE e o CUTTY SARK.

The Famous Grouse é um whisky saborosíssimo. De acordo com o livro “suaves e equilibrados, os maltes das Highlands imprimem-lhe uma certa corpulência, todavia temperada pelos whiskies de cereais que lhe conferem fluidez e leveza”. É o blended mais vendido na Escócia.

O Cutty Sark é outro excelente whisky. “Este é envelhecido em cascos que serviram anteriormente para xerez, e daí as leves notas de baunilha que é possível reconhecer na degustação." O Cutty Sark foi criado em 1923, na Escócia, para satisfazer o paladar do mercado americano, que prefere os scotchs mais ligeiros. Com o advento da Lei Seca, Francis Berry, um dos criadores da marca, continuou a fazer chegar clandestinamente, das Bahamas, grandes quantidades de whiskies ao solo americano, graças ao trabalho incansável do Capitão William McCoy. The real McCoy acabou virando uma expressão que autenticava a qualidade de um bom scotch. William McCoy transformou-se numa lenda, com seus carregamentos de rum e whisky, inovando com uma rede de barcos menores que encontravam seu navio fora das águas dos EUA e levavam os suprimentos para os speakeasis, os bares underground que serviam as bebidas ilegais. O Cutty Sark beneficiou-se dessa transgressão e ainda hoje, pela sua qualidade e história, é um scotch muito popular nos Estados Unidos. 

Sou obrigado a citar um terceiro whisky, o single malt THE GLENLIVET. “Harmonioso na boca, de corpo firme e simultaneamente aveludado, o single malt produzido na destilaria de Glenlivet oferece ao paladar aromas de mel e de frutos (pêssego)." É possível encontrá-lo nos free shops.

A razão de citá-lo neste post deve-se à sua qualidade excepcional e por ser um personagem decisivo em um excelente filme de suspense, LIGADAS PELO DESEJO (Bound). Primeiro filme dirigido pelos Irmãos Wachowski, de 1996, antes do sucesso de Matrix. Um policial noir envolvendo gangsters, bebidas e mulheres fatais. Duas garotas que se apaixonam, Violet (Jennifer Tilly) e Corky (Gina Gershon), planejam um golpe contra a máfia, para roubar US$ 2 milhões que estão com Ceasar (Joe Pantoliano), namorado de Violet. Em momento chave da trama, de acordo com o plano que elaboraram, Violet deve fingir que quebrou acidentalmente uma garrafa de Glenlivet, o único scotch que o chefão Gino Marzzone bebe. Assim, terá que sair do apartamento apressadamente para comprar outro Glenlivet, uma vez que Ceasar está esperando a chegada de Gino Marzzone para entregar-lhe o tal dinheiro. Esse artifício dará chance para Corky entrar escondida na residência, pela porta aberta por Violet e enquanto Ceasar está no banho, e roubar os milhões da maleta do capanga da máfia. Só que o plano não sai exatamente como esperado e Ceasar revela-se como o único adversário à altura da dupla de amantes golpistas. Um filme que se espalha por vários gêneros, sexy, inteligente, requintado, cheio de estilo, tensão, humor pontual, bela fotografia, e com suspense do início ao fim, Bound é um thriller de tirar o fôlego e um dos melhores a que já assisti.

Assistam a Bound acompanhados pelo seu whisky favorito. Bom divertimento.






quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

MURDER

(“Incrível como é fácil reconhecer duas pessoas apaixonadas.”)



 


Notamos na produção de Hollywood, há alguns anos, um excesso de refilmagens e sequências. Mas conseguimos nos lembrar de uma refilmagem tão boa quanto o original? Ou ainda, de qualquer uma que seja considerada um bom filme? Precisamos puxar pela memória. Mas uma das exceções certamente é digna de menção. UM CRIME PERFEITO (A Perfect Murder), de 1998, refilmagem de DISQUE M PARA MATAR (Dial M for Murder), de 1954, do mestre Alfred Hitchcock.

Ambos os filmes apresentam em seus créditos a peça na qual são baseados, Dial M for Murder, de Frederick Knott. No filme de Hitchcock, Knott é também o autor do roteiro. Hitchcock dizia que se você compra uma peça de sucesso não deve desenvolvê-la. Deve apenas filmá-la. Mas à maneira que ele faria, devemos acrescentar. Isso explica o formato da obra, uma peça teatral filmada, mas de maneira brilhante, com a câmera exatamente no lugar certo em cada momento da ação. Noventa por cento das tomadas foram no cenário de um apartamento, mas nem por isso é menos interessante ou com menos suspense. Pelo contrário. Embora esse filme não esteja entre os mais lembrados e valorizados de Hitchcock, como Psicose, Os Pássaros, Um Corpo que Cai, Janela Indiscreta, Festim Diabólico e Intriga Internacional, podemos dizer que Disque M Para Matar está no segundo bloco de grandes filmes do mestre, como Trama Diabólica, Frenesi, Rebecca, O Homem que Sabia Demais, Interlúdio, A Sombra de Uma Dúvida, O Homem Errado, entre outros.

Temos, em Disque M Para Matar e Um Crime Perfeito, um grande vilão, respectivamente Ray Milland e Michael Douglas; as belas esposas loiras em ótimas interpretações, frágeis e ao mesmo tempo feras quando acuadas, Grace Kelly e Gwyneth Paltrow; dois chefes de polícia, John Williams, ator inglês e um dos preferidos de Hitch, com maior participação na trama, e David Suchet; mais o amante e o assassino. No filme de Hitchcock o criminoso que sobrevive de golpes em  mulheres é Anthony Dawson e o namorado que completa o triângulo amoroso é Robert Cummings. Em Um Crime Perfeito, dirigido por Andrew Davis, Viggo Mortensen é uma combinação do amante e do assassino golpista. Tanto Ray Milland como Michael Douglas comentam em certo momento, acerca do casal infiel, com um ar de ameaça sutil e sarcasmo: "Incrível como é fácil reconhecer duas pessoas apaixonadas".   

Disque M Para Matar é um suspense ambientado em Londres, filmado com uma elegância própria do Reino Unido, com a classe dos principais atores comandando o espetáculo, principalmente Ray Milland e John Williams. Podemos destacar duas cenas, entre várias admiráveis: uma que entrou para a história do cinema; outra que ilustra a elegância do filme, ambas decisivas na estória.

A cena em que Grace Kelly está prestes a ser atacada, após Ray Milland discar “M for murder”, e depois debate-se por sua vida até encontrar a tesoura afiada, é antológica e de um suspense bem maior que a da refilmagem.

A outra cena destaca a classe do filme e o charme de uma época que já não existe, quando as pessoas convidavam os amigos para “tomar um drink lá em casa”. Ao final do filme, Ray Milland volta ao apartamento onde tudo acontece e consegue abrir a porta com a chave que estava escondida sob o tapete, na escada do prédio. Ao entrar, sua expressão de alívio, mas um tanto intrigada, é substituída pela surpresa ao encontrar, de um lado, Grace Kelly e o amante, e do outro, o inspetor de polícia atrás da escrivaninha. Dá meia volta e tenta fugir pela porta que entrou, mas um policial no corredor lhe barra a saída. Fica alguns segundos paralisado e se dá conta que não adianta mais, foi desmascarado, está tudo perdido. Recompõe-se e dirige-se ao inspetor: "Parabéns, inspetor", e coloca a chave, prova do crime, sobre a mesa. Pega a garrafa de scotch e, dirigindo-se ao bar, serve-se de uma dose de Red Label. Pergunta a Grace Kelly:
- Aceita, Margot?
- É, acho que um pouco me faria bem – responde ela com lágrimas discretas. 
- Mark?
- Pra mim também.
- Suponho que ainda esteja em horário de expediente, inspetor.
Este está ao telefone chamando os colegas policiais.
Assim termina o filme, com todos bebendo juntos.

Em Um Crime Perfeito, o diretor Andrew Davis optou por um outro conceito. A estória é desenvolvida como um policial noir, com uma bela fotografia em tons sépia. Um thriller clássico onde o suspense e a movimentação do roteiro nunca perdem o pique. Alguns o consideram melhor que o original, o que pode soar como uma heresia, afinal Disque M Para Matar é considerado uma obra-prima. O fato é que o filme de Andrew Davis, um dos melhores policiais da década de noventa, honra a versão de Hitchcock.

Todos os atores oferecem ótimas interpretações. Michael Douglas, carismático como sempre, principal figura do filme, faz um vilão calculista e maldoso, ao contrário de Ray Milland, também calculista mas um gentleman. Gwyneth Paltrow é a mocinha ingênua, que nessa versão, ao contrário de Grace Kelly, não tem um mocinho para defendê-la e precisa se virar sozinha. Viggo Mortensen é o amante golpista, que gosta realmente de Gwyneth, mas acaba cedendo à sua natureza criminosa. Os desdobramentos desse triângulo amoroso (envolvendo crimes) é cinema de qualidade.

Ambos os filmes nos proporcionam uma excelente sessão dupla sobre o tema assassinato. Sarita Choudhury, conversando com Gwyneth, nos explica essa natureza:
- Traição é a segunda razão mais antiga para se matar alguém.
- É mesmo? E qual seria a primeira?
- Money, honey.



sábado, 23 de janeiro de 2016

AMAR FOI MINHA RUÍNA

(“Dos sete pecados capitais, o ciúme é o mais perigoso.”)





Um dos mais importantes e interessantes melodramas da história do cinema, também reconhecido como um clássico noir, é AMAR FOI MINHA RUÍNA (Leave Her to Heaven), de 1945. Com Gene Tierney, Cornel Wilde, Jeanne Crain e Vincent Price. Do diretor John M. Stahl.

Gene Tierney foi uma atriz de uma beleza em grau superlativo. No entanto, teve uma vida difícil e atribulada. Entre seus principais filmes estão Amar Foi Minha Ruína, Laura, de Otto Preminger, O Fio da Navalha, de Edmund Goulding e A Vingança de Frank James, de Fritz Lang.

Amar Foi Minha Ruína é daqueles filmes que prendem nossa atenção e depois ficam em nossa cabeça por um bom tempo. Ficamos com a impressão de ser um dos melhores que já vimos. O que é verdade. É um filme sobre a beleza de Gene Tierney, tão resplandecente que às vezes parecia uma boneca de porcelana, e o contraste com o ciúme doentio e amor possessivo de sua personagem. Dizem que o diabo sempre aparece numa versão sedutora. Ellen Berent, personagem de Tierney, prova a verdade da expressão popular.

Essa estória é contada através de uma belíssima fotografia em cores vencedora do Oscar, acompanhada pelas belas paisagens do Maine e Novo México. A atuação de Gene Tierney e a caprichada direção de arte também foram indicadas para o prêmio da Academia.

Richard “Dick” Harlan (Cornel Wilde, um tanto quanto canastrão) passou dois anos na prisão e é recebido pelo amigo advogado Glen Robie (Ray Collins), quando regressa a Deer Lake, Maine, onde possui um chalé chamado Back of the Moon, à beira de um lago em formato de lua crescente. Ao desembarcar da pequena lancha, no trapiche do povoado, as pessoas ao redor não conseguem disfarçar olhares de pena. Após Dick afastar-se em um bote na direção de sua morada, Glen relata a um amigo o que levou aquele homem a tal situação e a história entre Dick e Ellen (Gene Tierney) é contada em flashback. "Dos sete pecados capitais, o ciúme é o mais perigoso", assim inicia Glen sua narrativa. "Eles se conheceram por meu intermédio."

O primeiro contato aconteceu no trem, sem saberem que estavam indo para o mesmo destino. Ocorreu um jogo de sedução recíproco. Ele completamente fisgado por aquela beleza irresistível; ela, impressionada pela semelhança que aquele estranho tinha com seu falecido pai, com o qual era muito ligada.

Despediram-se e ela desceu no povoado de Jacinto. Ele se deu conta que também era o seu ponto final e desceu logo após. Glen Robie é um amigo em comum da família Berent e de Richard Harlan. Estava recepcionando, na estação ferroviária, a viúva Berent e as belas filhas Ruth (Jeanne Crain) e Ellen. Richard aproximou-se, surpreso por reencontrar Ellen, e Glen fez as apresentações. "Nós nos conhecemos no trem. Brevemente", comentou Ellen. "Muito brevemente", respondeu Dick. Mal sabia ele que estava escolhendo a irmã errada. Mas seria impossível ignorar a beleza e charme da garota que encontrara no trem.

Glen Robie explica para seu amigo que convidara Richard, escritor, para descansar no seu rancho no Novo México, já que esse estava trabalhando em mais um livro. As Berents, amigas da família, também convidadas, lá estavam porque iriam realizar uma pequena cerimônia. As cinzas do pai falecido seriam espalhadas no alto de uma montanha, num platô que era seu lugar favorito e onde ia muito com a filha Ellen.

Ellen era noiva de um promotor ambicioso, Russell Quinton (Vincent Price). Mas essa circunstância não foi suficiente, nesses dias de convivência naquele ambiente bucólico, para impedir que florescesse o romance entre ela e Dick e anunciassem seu casamento ainda no Rancho Jacinto.

Quando o casal se mudou para o chalé de Dick, no Maine, o amor possessivo de Ellen começou a manifestar-se agressivamente, provocado pela presença do irmão pré-adolescente de Dick, Danny (Darryl Hickman), vítima de paralisia, que morava com eles, bem como pela presença do caseiro e até de sua própria família quando apareceu para visitá-los. Qualquer um que pudesse se interpor entre ela e o marido.

Algumas cenas do filme entraram para a história do cinema. Como a do afogamento do irmão deficiente no lago, impressionante até hoje. E a cena da queda de Ellen na escada, homenageada por Gilberto Braga, um dos fãs do filme, na novela Vale Tudo, com Glória Pires protagonizando a sequência.

Reconhecemos no comportamento de Ellen aquela irracionalidade feminina que atormenta os maridos, que nós, homens, somos incapazes de compreender. Mas essa garota virava o fio. Sua capacidade de alopração ia muito além da expectativa de Dick e da nossa como plateia. E Gene Tierney arrasa como femme fatale, enlouquecendo a todos nós, seja por sua beleza e sedução diabólicas, seja pelas linhas que ultrapassa como anjo do inferno em momentos de puro terror, que nem a morte pode evitar.

Amar Foi Minha Ruína é um excelente filme. Desenvolve um estudo sobre uma mente perturbada, tomada pelo ciúme e amor doentios, destruindo todos a sua volta e criando uma das vilãs mais malévolas do cinema. Como testemunhou Dick sob interrogatório no tribunal, quando tudo parecia estar perdido: "Ellen era capaz de tudo".

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

MULHERES DIABÓLICAS

(“O maior problema deles é saber a cor do carro que vão comprar ou não deixar o primo roubar metade da herança da avó.”)



                                                      

Nestes tempos de polarização, direita versus esquerda, ricos versus pobres, neoliberais versus socialistas, um brilhante filme sobre a luta de classes merece ser lembrado.

MULHERES DIABÓLICAS (La Cérémonie), de 1995. Com Isabelle Huppert, Sandrine Bonnaire e Jacqueline Bisset. Do genial diretor francês Claude Chabrol. Releitura do romance A Judgement in Stone, de Ruth Rendell, uma das damas da literatura policial inglesa.

Admirador de Hitchcock, Chabrol, falecido em 2010, foi um dos expoentes da Nouvelle Vague. Com uma produção bastante prolífica, principalmente no gênero suspense, os filmes do diretor francês são sempre interessantes. Esse Mulheres Diabólicas é o preferido em minha casa e é considerado um dos melhores de Chabrol.

Destaque para as interpretações do quarteto central: Isabelle Huppert, com grande atuação, premiada com o César e em Veneza, Sandrine Bonnaire, prêmio em Veneza, Jacqueline Bisset e Jean-Pierre Cassel.

Temos dois blocos de personagens bem definidos: os ricos e os pobres. Os matizes que desenvolvem suas personalidades são um dos pontos altos do filme.

Os ricos são representados pela família de um bem-sucedido industrial, Georges Lelièvre (Jean-Pierre Cassel), que mora numa mansão no interior da França. Sua esposa, Catherine (Jacqueline Bisset, a beleza e charme da riqueza), possui uma galeria de arte na cidade. Dois adolescentes completam o núcleo familiar. Melinda (Virginie Ledoyen), mais velha, é filha de Georges, e Gilles (Valentin Merlet), o rapaz, é filho de Catherine. Os Lelièvre possuem cultura refinada mas ao mesmo tempo são simples e não arrogantes. Típica burguesia francesa sem afetações.

Os pobres, principais protagonistas do filme, são duas amigas, Sophie (Sandrine Bonnaire) e Jeanne (Isabelle Huppert). Sophie é contratada como empregada doméstica por Catherine. Não revela que sofre de dislexia, o que acaba lhe causando problemas, assiste TV numa espécie de torpor como um mecanismo de fuga da realidade e esconde um passado obscuro. Jeanne trabalha no correio da cidade e faz amizade com Sophie. Ao contrário desta, é extrovertida, impulsiva, bisbilhoteira e insolente. Também possui um passado traumático e suspeito.

Sophie foi bem recebida pelos patrões. São generosos e amáveis. Ela, por sua vez, é calada e monossilábica. Em nenhum momento retribui a simpatia que lhe dirigem. Como se sua condição social lhe impedisse de simpatizar com aqueles que lhe pagam e não passam por dificuldades. Para ela tudo parece ser difícil, não consegue ler a lista de compras (por ser analfabeta), evita o patrão ao telefone pelo mesmo motivo, e mais os problemas graves do seu passado.

Aproxima-se naturalmente de Jeanne, a funcionária do correio, a única companhia com quem consegue sorrir e demonstrar uma tímida alegria. Identificam-se pela posição social, por uma vida difícil, com traumas não resolvidos, ao contrário dos Lelièvre, que são tranquilos e para quem a vida parece bem mais fácil por conta de sua classe social privilegiada.

As diferenças entre o mundo de Sophie e de Jeanne e o mundo dos Lelièvre são sempre bem nítidas, frequentemente colocadas em contraste. Desde uma das primeiras cenas, onde Catherine mostra para Sophie o quarto simples, com uma pequena TV, onde ficará acomodada, e depois apresenta o luxo e espaço dos quartos da família, salas e biblioteca e sua moderna e enorme TV.

Catherine comporta-se como alguém que quer segurar a serviçal a qualquer custo, sempre minimizando suas limitações, até um momento em que não poderá mais desculpá-la. Logo após contratá-la, inclusive comenta no jantar sobre sua satisfação tanto com o serviço da empregada como também a possibilidade de distância: "Estou aliviada. Minha vida ficou mais fácil. Não faço nada e nem preciso falar com ela."

Ao longo da narrativa, Chabrol explicita o caráter de luta de classes do filme, bem como compõe o aumento gradativo do clima tenso entre os personagens e a revolta crescente entre as duas amigas trabalhadoras, criando um clima de suspense que faz jus à sua fama de mestre do gênero.

Jeanne convida Sophie para participar de um grupo beneficente da igreja que distribui donativos para os pobres. Deixando claro de que lado estão, não demoram para se rebelar contra os doadores miseráveis que querem desovar seus trastes e alimentos vencidos nos necessitados e são expulsas do grupo pelo padre.

Georges Lelièvre, industrial, explora também o ramo das sardinhas. Num momento bem-humorado do filme, Jeanne flagra os Lelièvre agindo, em outra escala, tal qual o pessoal dos donativos. Ao bisbilhotar a lista de compras de Sophie encomendada pelos patrões, repara que a marca da lata de sardinhas não é a mesma que produzem. "Sardinha? Mas eles fabricam. Vai ver é melhor que a deles!", diverte-se com a desova nos consumidores do produto de qualidade duvidosa.

Georges desconfia que Jeanne viola as correspondências que lhes são enviadas. Irritado, ao reclamar discute com a própria no correio. Mais tarde Jeanne desabafa com Sophie: "Eles são patéticos. Bancam os gentis, mas também, têm tudo. O maior problema deles é saber a cor do carro que vão comprar ou não deixar o primo roubar metade da herança da avó."

Noutro momento, perto do confronto que acontecerá, Sophie revela a Jeanne a conversa que ouviu pela extensão telefônica sobre a gravidez indesejada de Melinda e suas confidências com o namorado sobre um possível aborto. "Para eles não é um problema. Ficar ou tirar não é problema", comenta Jeanne. "Fiquei grávida, abandonada, sem ninguém pra me consolar, nem pra me dizer o que fazer ou aonde ir caso quisesse abortar." O desdobramento desse episódio evolui para um conflito entre Sophie e Melinda e a empregada acaba demitida pelos patrões.

Pelas privações e dramas pessoais que sempre encontraram na vida, um possível passado criminoso por parte de cada uma das amigas ("Não puderam provar!"repetia Sophie) não está fora de contexto. Além disso, certo fator psicótico se faz necessário para provocar a coragem espontânea do radicalismo de suas ações.

La Cérémonie (A Cerimônia) é uma expressão em francês que significa o desenrolar de acontecimentos que levam à morte na guilhotina. Chabrol costura a tensão que se desenvolve entre os ricos e os pobres para levar sua trama a um final que alude ao próprio título do filme. Um clímax que viria inclusive a ser uma das influências de Match Point, de Woody Allen, numa cena similar de grande impacto.

Não se tratava de uma questão pessoal. Os ricos eram boas pessoas, melhores que as garotas proletárias, mas o desfecho surpreendente e violento, tão macabro quanto poético, foi apenas a manifestação inevitável das contradições de classes explodindo numa fúria incontrolada e vingadora. Aconteceu o que estava fadado a acontecer, o que Chabrol nos insinuou durante todo seu grande filme, deixando claro que não havia espaço para conciliação. Apenas para a revolução. 

Como comentava o próprio Claude Chabrol: "La Cérémonie" é o último filme marxista.   


sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

EASY RIDER

(“Nunca diga a alguém que ele não é livre porque ele vai matar para provar que é.”)

                                         



Há alguns milhares de anos perdemos algo chamado inocência...desde então sentimos medo dela.

1973. Porto Alegre. Colégio Anchieta. Aula de Filosofia do Prof. João. Uma garotada na faixa dos quinze anos é levada para o auditório do colégio para uma sessão de cinema. Só que, para não aloprar com a gurizada, nos apresentaram um filme editado, sem as sequências iniciais de sexo, drogas e rock'n’roll, indispensáveis para se entender toda a estória. Me lembro, de qualquer jeito, que ficamos muito impressionados. Aliás, aquelas aulas de filosofia sempre nos impressionavam. Tudo era uma grande revelação. Consumismo, sistema, massificação, alienação eram termos citados para nós pela primeira vez e traziam uma grande carga de impacto. Assim como o filme incompleto que nos apresentaram. Mesmo pirralhos, sem saber nada da vida, sentíamos que alguma coisa forte e significativa estava acontecendo na tela e na vida real. O filme?

SEM DESTINO (Easy Rider), de 1969. Produzido por Peter Fonda. Dirigido por Dennis Hopper. Roteiro de Fonda, Hopper e Terry Southern. Com Peter Fonda, Dennis Hopper e Jack Nicholson. Clássico maior da contracultura. O legado de Fonda e Hopper para o cinema e para a cultura contemporânea.

Uma viagem transgressora pelo coração da América conservadora e ao mesmo tempo em discussão com um sistema alternativo de valores. O mais emblemático dos road movies. Peter Fonda e Dennis Hopper, depois com Jack Nicholson, a bordo de duas Harley-Davidsons, embalados pela trilha sonora de Jimi Hendrix, Steppenwolf e The Band, entre outros, singrando o asfalto e deparando-se com toda a sorte de tipos. Um painel comovente e enérgico de uma época que questionava e batia de frente com uma sociedade enraizada em seus valores putrefatos.

As máquinas também são personagens principais. Em O Selvagem, com Marlon Brando, as motos eram um símbolo de rebeldia. Em Easy Rider, além de rebeldia, são principalmente um símbolo de liberdade.

Peter Fonda livra-se do relógio e junto com Dennis Hopper caem na estrada. Conseguiram dinheiro para sua aventura através de uma operação simples de venda de droga. Fonda é Wyatt ou Capitão América, pelas cores da bandeira americana na moto, jaqueta e capacete, também alusão ao personagem dos comics representativo do espírito americano. Hopper é Billy. Wyatt é pensativo e Billy é a transgressão espontânea, inata.

São dois cowboys num western sobre rodas, como sugere a paisagem do Monument Valley, palco glorioso dos filmes de John Wayne e John Ford, e o encontro com os primeiros personagens que cruzam seu caminho, no início da jornada até o Mardi Gras, em New Orleans, e além: uma simpática família de fazendeiros, que ao mesmo tempo em que consertam a ferradura de um cavalo, os motoqueiros estão reparando a roda de uma das motos. Peter Fonda comenta com o chefe da família, na mesa do almoço: "Sua fazenda é legal. Nem todos podem viver da terra. Você trabalha no que é seu, quando quer. Deveria se orgulhar."

Depois, seguindo viagem, dão carona a um hippie. Óculos de aro fino, bandana na cabeça, bigode comprido, roupas características. Intelectual hippie. À noite, Billy pergunta de onde ele é. O cara responde: "De uma cidade. Não importa qual, são todas iguais. Por isso estou aqui. Longe daquela cidade, e é onde quero estar." Acabam numa comunidade alternativa onde as pessoas plantam para comer. Quase uma aldeia indígena. Curtem a comunidade, as garotas, mas ainda são estranhos. "Este poderia ser o lugar certo, mas seu tempo está acabando", fala para Wyatt o amigo hippie, líder do grupo, praticamente um sacerdote da tribo. Que ainda lhe entrega um presente, um pequeno pacote: "Quando estiver no lugar certo, com as pessoas certas, repartam isto".

A próxima parada dos cowboys, forasteiros que provocam a desconfiança dos nativos, é a cadeia de uma pequena cidade, onde são presos por “desfilar sem permissão” (estavam apenas seguindo a apresentação da bandinha da cidade) e onde conhecem George Hanson (Jack Nicholson), preso contumaz por embriaguez. Advogado que já trabalhou com a União Americana das Liberdades Civis e que simpatiza com a dupla. Consegue-lhes a liberdade por uma pequena fiança e resolve acompanhá-los de carona até New Orleans, usando um ridículo capacete de futebol americano.

Numa das primeiras cenas do filme, a dupla de motoqueiros não conseguiu pousada num motel de beira de estrada porque o gerente assustou-se com a aparência deles, esses cabeludos perigosos. Desde então passaram a dormir ao relento, no mato, em volta de uma pequena fogueira, como verdadeiros cowboys. Os diálogos que travam nessas noites, entre uma marijuana e outra, são um dos pontos altos do filme. Principalmente entre George e Billy. Como quando, “chapados”, conversam sobre OVNIs.

George discursa: "Eles são pessoas como nós, do nosso sistema solar. Só que a sociedade deles é mais evoluída. Não tem guerras, não tem um sistema monetário nem líderes, porque cada homem é um líder. Com a tecnologia que têm, eles podem se alimentar, se vestir, morar e se transportar com igualdade e sem esforço."

Ele continua, após Billy objetar como quem não está entendendo nada: "Nossos líderes decidiram acobertar as informações que seriam um choque tremendo para nosso sistema antiquado. Os venusianos encontram gente de todas as classes sociais e fazem o papel de conselheiros. Pela primeira vez, o homem terá um controle divino sobre o seu próprio destino. Ele terá a oportunidade de transcender e evoluir com alguma igualdade para todos." George para de falar, sorrindo, olhar vago para Wyatt. O baseado apagado e a cara de quem acaba de aterrissar do espaço sideral.

Em outro momento, nessas conversas iluminadas por uma fogueira, George, mais sério, explica certas coisas para Billy. Este se queixa das hostilidades, pois recém tinham sido praticamente corridos de uma lanchonete da cidadezinha por onde passavam, embora tenham atraído a atenção das meninas:

- Todos viraram covardes, é isso. Nós nem pudemos ficar num hotel de segunda, aliás, um motel de segunda! O cara achou que a gente fosse matá-lo. Eles têm medo.
- Não têm medo de vocês, mas do que vocês representam – responde George.
- Cara, pra eles só representamos alguém que devia cortar o cabelo.
- Não. Para eles vocês representam a liberdade.
- E qual o problema? Liberdade é legal!
- É verdade, é legal mesmo, mas falar dela e vivê-la são duas coisas diferentes. É difícil ser livre quando se é comprado e vendido no mercado.

George continua:
- Mas nunca diga a alguém que ele não é livre porque ele vai tratar de matar e aleijar para provar que é. Eles falam sem parar de liberdade individual mas, quando veem um indivíduo livre, ficam com medo.
- Eu não boto ninguém pra correr de medo.
- Não. Você é que corre perigo. 

George será a primeira vítima do reacionarismo e do medo.

Chegam a New Orleans apenas Wyatt e Billy. Por insistência deste último dirigem-se ao bordel indicado por George, como uma deferência ao amigo. Fazem amizade com duas garotas, Karen e Mary, e misturam-se os quatro com a população no Mardi Gras.

Divertem-se na festa da cidade e depois vão passear no cemitério. Lá, num cenário gótico, entre túmulos e mausoléus, como se fosse uma cerimônia religiosa, Wyatt reparte o presente que havia ganho do hippie. “...no lugar certo, com as pessoas certas...” Tomam as pílulas e embarcam numa “viagem” mística, catártica, entre orações, lamentos, visões fugazes e sexo. Como tragados por um redemoinho de sensações que transcende os espíritos, corpos e ancestrais.

É nessa experiência que Wyatt parece ter uma revelação enigmática, de sentido ambíguo, contraditório (sobre eles ou sua geração), que dividirá à noite com um surpreso Billy, que se vangloriava do dinheiro que tinham conseguido como se isso significasse ser livre, os dois conversando ao relento: “You know, Billy? Nós estragamos tudo.”  

Quando a jornada dos dois parceiros é interrompida bruscamente, Billy agonizante ameaçando os agressores fugitivos que em seguida dão meia-volta (“Vou pegá-los! Estamos prontos!” como se essas últimas palavras orgulhosas, ele estirado no chão, representassem os novos ventos), a emblemática cena da moto de Wyatt, símbolo da liberdade e da bandeira americana, atingida por um tiro de espingarda e em chamas, é o desfecho violento de um grande filme.

Mataram a liberdade. O Sistema versus a Contracultura.

Mas a Contracultura sobreviveu.

Muitas conquistas daqueles anos 60 e 70 foram incorporadas ao nosso comportamento. Até mesmo a aula de filosofia que citei no início da postagem estava dentro desse contexto. Não se pode dizer que o movimento tenha sido derrotado. Trouxe contribuições que permanecem até hoje, inclusive à custa de sacrifícios, como testemunha a cena final de Easy Rider. Mas aqueles sonhos de vida em uma sociedade livre, plena e solidária continuam muito distantes. A jornada sem destino dos cavaleiros do asfalto ainda tem um longo caminho pela frente.